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Macau, dez anos depois
Foi no Outono de 1995 que começámos uma escola de hospitalidade e turismo em Macau. (..) Por entre a comoção de se fazer algo de novo, devo dizer que no princípio tivemos bastantes e inesperados problemas. Um deles foi o nome, não o nosso, mas o do sítio da nossa escola: toda a gente lhe chamava Hak Gwai San. (…) O nome significa “a montanha dos fantasmas negros” o que, para qualquer habitante de Macau, nunca poderia constituir bom augúrio.
Não foi pois sem surpresa que ouvi a Doris avisar-me que, com um nome daqueles, o mais certo era não termos alunos, nem clientes no nosso restaurante ou hotel. (…)
O Alex Zhong sugeriu que optássemos pelo que ele chamou a “gestão das pequenas coisas”, isto é, tendo nós identificado um grupo específico, os taxistas, deveríamos começar por eles. (…) E se gravássemos uma cassete com aulas de inglês adaptado à profissão e também um livro, ambos permeados do nosso nome, o nosso nome verdadeiro, Lou Iau Ho Iun (Instituto de Formação Turística), para que a mensagem passasse? (…) Nós acenámos que sim e no espaço de um mês os mais de 800 taxistas em Macau levantaram as suas cassetes no cimo da montanha, na nossa escola. A partir daquele momento todos nós nos passámos a olhar com um renovado interesse e a acreditar que não há coisas impossíveis.
Em Dezembro, quando passaram dez anos sobre a transição de Macau, muito se falou do território, mas ao longo do tempo deixamo-nos absorver pelo nosso trabalho e serão precisos outros dez anos para que se volte a falar outra vez. Não me interessa o que mudou em Macau porque há coisas que nunca mudam e eu sei que um sítio assim pode destruir-nos o coração. Não estou a brincar. É isso que me acontece quando ao fim destes dez anos apanho um táxi à saída do terminal do jetfoil e peço Lou Iau Ho Iun. No banco da frente vejo ainda quase intacto o nosso livro e logo depois o sorriso luminoso da taxista: “I know you. You teach us English!”. Ao aproximar-me da nossa escola reparei que em Macau a lua cheia ainda se pode ver sobre os prédios e vejo-me a repetir o que sempre disse: “não conseguem fazer este sítio feio”.
Virgínia Trigo, Professora na ISCTE Business School, in “Jornal de Negócios”
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