000primeira
020opiniao
030local
050desporto
070actual
081jete
090cambios
091tempo
092ultima


 


casademacau

Bookmark and Share


 
  N°3317 (Nova Série), Segunda-Feira, 16 de Novembro de 2009

sales marques em entrevista ao jtm

Sociedade da RAEM está a viver “um importante processo de maturação”

A última década foi importante para a afirmação da identidade de Macau, defendeu o director do Instituto de Estudos Europeus, em entrevista ao JTM. Sobram ainda assim algumas questões que merecem discussão para que a RAEM esteja verdadeiramente entregue e responda às suas gentes. Embora muita coisa tenha mudado, a comunidade macaense, entende José Sales Marques, deve pegar no seu papel histórico e transformá-lo em pistas de futuro

DIANA DO MAR
RAQUEL CARVALHO

- Qual é o balanço que faz dos últimos 10 anos?
- Numa perspectiva global, é um balanço muito positivo. Na altura da transferência de soberania, Macau estava numa situação económica bastante difícil e também em termos de segurança. Dez anos depois, temos uma situação económica extremamente favorável, apesar das diferentes crises económicas, o que nos permite encarar o futuro com optimismo. Do ponto de vista social e político, vivemos numa sociedade com bastante estabilidade, a segurança é obviamente muito boa, talvez se possa dizer que é uma das cidades mais seguras do mundo. Portanto, estamos francamente melhor. Foi feito um percurso importante no sentido da afirmação da identidade enquanto RAEM. Por outro lado, não obstante algumas questões que merecem reflexão, nomeadamente a das eleições, da democracia e até que ponto é importante assegurar uma melhor participação da população na tomada das decisões, diria que politicamente é importante sublinhar que há 10 anos havia pessoas a recearem que a identidade de Macau enquanto RAEM poderia estar em perigo, sendo absorvida por Zhuhai. Mas, agora, ninguém questiona que Macau adquiriu o seu próprio direito de existência. Hoje em dia, apresentamo-nos perante o mundo sem precisar de explicar onde estamos ou o que somos em relação a Hong Kong. Todas essas questões estão cada vez mais diluídas.
- Referiu alguns aspectos que poderiam ser melhorados…
- Por exemplo, no aspecto político, que é por onde devemos começar, e não pela questão económica. Fiz ainda parte da Administração da RAEM e, naqueles primeiros anos, verificou-se de imediato que a população de Macau passou a ser mais exigente, porque Macau governada pelas suas próprias gentes não é apenas um slogan, tem várias nuances. Uma delas é que agora existem maiores responsabilidades para com as pessoas de Macau. E elas também sabem que devem exigir mais dos seus pares que estão no Governo. Há um nível de exigência acrescido, o que pede uma capacidade de liderança e governação superior, o não quer dizer que Macau não tenha vindo a ser bem governado. Em muitos aspectos até julgo que sim, embora existam outros que poderiam ser melhores. ‘Macau governada pelas suas gentes’ levou a que as pessoas tivessem adquirido mais consciência, maturidade e maior exigência. A população começou por exigir melhor governação em coisas muito concretas e, actualmente, já coloca outras questões, que têm mais a ver com o sistema político. Há um importante processo de maturação, que é fundamental para o sucesso de uma sociedade. O facto de defendermos que tem de haver maior participação por parte das pessoas e mecanismos políticos e instituições que o permitam é uma exigência que tem a ver com a nossa vontade de que Macau seja cada vez melhor para todos.
- Isso já ficou patente nas últimas eleições?
- Nas últimas eleições já observámos que uma percentagem significativa das listas participantes advogaram a participação da população, quer a nível das legislativas quer das eleições para o Chefe do Executivo ou em outras formas de democracia mais de base. Por exemplo, nas decisões que têm a ver com discussões mais do tipo municipal, como os Conselhos Consultivos, que não podem apenas ser constituídos por associações que estão representadas noutros níveis do poder, mas que têm de ser verdadeiramente abertas, procurando a participação efectiva, real e sincera das pessoas. Não podem ser organismos apenas para compor o ramalhete. Sou a favor das consultas, mas das consultas bem feitas. Estes mecanismos podem ser melhorados para que captem de uma maneira mais clara e verdadeira aquele que é o sentido da população.
- De que forma poderia ser melhorado o mecanismo de consulta?
- Para já, acho que há falta de tempo. As consultas são feitas por vezes num período muito curto, outras em fases mais alongadas, mas o que há aqui é uma maior partilha de informações. É um bom princípio no sentido de uma maior transparência daquilo que são os objectivos e as intenções do Governo. É um bom primeiro passo. Todavia, os mecanismos deveriam ser mais complexos e sofisticados, permitindo que as pessoas dêem as suas opiniões e depois se conheça o ‘feedback’. Uma consulta para que o seja efectivamente tem de ser capaz de reflectir as opiniões do público e discuti-las. De outro modo, é só uma partilha de opiniões. Em princípio, o caminho traçado está correcto, mas há mais coisas a aprofundar.
- Mas esse primeiro passo não devia ter sido dado há mais tempo?
- Se calhar, a própria Administração portuguesa já deveria ter dado esse passo. Os problemas que existem não foram criados apenas pela RAEM. Temos é de olhar para as coisas de uma maneira mais profunda e, em alguns casos, de uma forma mais profissional. Aqui, surge outra questão, não temos em Macau, em muitos aspectos, a qualidade profissional necessária e, muitas vezes, não o queremos admitir. Sou a favor da contratação de pessoas do exterior, pois há falta de profissionais em muitas áreas, por exemplo, na dos serviços, mas também nas que exigem planificação de estudos. Não devemos ter uma atitude fechada relativamente a esta matéria. Nem há justificação para isso, porque temos uma boa situação económica e capacidade de ir ao mercado internacional e contratar o melhor. Podemos fazer melhor e ser mais exigentes connosco... a nossa sociedade deveria assumir este espírito. Em certos aspectos, ainda somos complacentes, desleixados e um bocadinho provincianos.
- Essa falta de profissionais em certas áreas também tem a ver com a qualidade das instituições de ensino?
- As instituições de ensino poderiam e deveriam ter melhor qualidade. Em Macau criou-se muito a ideia dos programas do tipo técnico-pedagógico, onde no fundo as soluções já estão fabricadas e não há lugar para o ensino da filosofia, das humanidades, da especulação metafísica… A crise que estamos a viver provou precisamente o contrário. No fim, veremos que os paradigmas, nomeadamente na área da gestão económica e financeira, são uma mentira. Foram vendidos por aí fora e ensinados a todo o momento como se fossem a coisa mais fantástica e afinal ruíram. São supostamente científicos, mas a verdade é que baseiam-se em opções ideológicas muito claras, têm a ver com a vida das pessoas. Mais do que nunca é preciso ter um espírito crítico agudo. É fundamental que, em Macau, as universidades e instituições de ensino superior tenham consciência que é preciso introduzir essa componente no ensino. É necessário pensar sobre as coisas e depois saber aplicar à realidade. Com algumas excepções, ainda há muita falta de pensamento crítico.
- Tendo em conta esse factor, a população já estará preparada para que o número de deputados eleitos por sufrágio universal aumente nas próximas legislativas?
- Isto de estar preparado ou não, é a história do ovo e da galinha. Nunca saberemos se está preparada ou não, se não o fizermos. A experiência é a mãe de todas as coisas. Por muitos inquéritos que se façam não é possível chegar à certeza. Suponhamos que a população de Macau não está preparada – a esse argumento associa-se o facto de haver ainda muita manipulação: jantares, almoços, prendinhas, excursões no dia das eleições… Ora, este pensamento ajuda a alimentar ainda mais estas situações, de compadrio, compra ou aliciamento. Temos de ir caminhando e tudo poderá acontecer se se proceder a um processo de consulta bem conduzido. Devemos procurar realizar um processo de consulta como deve ser, para podermos estudar melhor o timing em que as eleições directas poderão ser introduzidas em Macau.
- Qual é o papel que a comunidade macaense desempenha efectivamente na sociedade actual?
- É um papel histórico. Mas, o peso da história é relativo, e não podemos viver disso. Em certa medida, os macaenses têm um papel de intérprete, não no sentido de tradutor, mas talvez consigamos perceber melhor do que ninguém as diferenças de um lado e do outro, traduzindo divergências e convergências. Desse ponto de vista, os macaenses precisam de se manter fiéis à sua cultura. É preciso aprofundar a cultura e a maneira de estar do macaense, não olhando apenas para o passado – embora importante, porque a herança tradicional é uma espécie de âncora que nos agarra à terra – construindo a partir daqui aquele que deve ser o nosso discurso do presente e do futuro.
- Como será possível aprofundar essa posição histórica e cultural dos macaenses?
- Através da acção conjunta, da interacção entre os macaenses, do esforço continuado no sentido de ver como é que podemos ser mais úteis para Macau. Julgo que os macaenses têm sido úteis, mas podem ser mais e fazer melhor. É esta a postura que devemos assumir. Os macaenses já são muito diferentes a vários níveis.
- O esforço conjunto de que fala deve reflectir-se na intervenção política, nomeadamente na convergência dos macaenses numa só lista, nas próximas eleições?
- O que estou a dizer vai muito além das eleições. Estas são importantes mas não podem ser o ponto de referência. É no dia-a-dia é que vamos aprofundando o nosso sentido de comunidade e as ligações com o mundo e a nossa identidade. Os macaenses que estão em Macau e os da diáspora devem ser uma única comunidade. Como é possível fazer isso? Não é fácil. Existem diversos interesses, cambiantes culturais, todavia, há algo que nos une: o facto de nos sentirmos e orgulharmos de ser macaenses. A diversidade enriquece, temos é que saber aproveitar e construir sobre isso.
- Os jovens macaenses estarão interessados num projecto comum?
- Acho que sim. Eles são o futuro. Sinto que há interesse em continuar, até porque o que caracteriza a juventude macaense é o sentimento de ser macaense e o afecto a Macau. Enquanto membro da organização dos encontros de juventude, vejo sinais positivos, havendo grupos que estão a fazer um esforço, ainda sem traços muito claros, porque é difícil construir essa teia de cumplicidades, mas há vontade de trabalhar nesse sentido. Isto para além de alguns deles já terem regressado a Macau... é porque se sentem melhor aqui do que noutro sítio.

 


 [Alto] [Voltar] [Próximo]


Bookmark and Share

HOME  .  E-MAIL SERVIÇO GERAL . E-MAIL SERVIÇOS ADMINISTRATIVOS . FICHA TÉCNICA  .  EDIÇÕES ANTERIORES  .  PUBLICIDADE  .  PRIMEIRA


Copyright (c) Jornal Tribuna de Macau, All rights reserved
Design and maintainence by Directel Macau Ltd