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EXPLICAÇÕES DE CARLOS MONJARDINO CAUSAM INCÓMODO E ALIMENTAM RECEIOS
Comunidade acredita que venda da Livraria terá ficado apenas adiada
O IPOR recuou na decisão inicial e decidiu suspender a venda da Livraria Portuguesa. O motivo, segundo Carlos Monjardino, foi única e exclusivamente financeiro. Para alguns elementos da comunidade trata-se apenas de “um adiar” e muitos defendem que o que vai continuar a prevalecer é o “vil e sonante metal”. Uns mais optimistas que outros, todos defendem que este “intervalo” deve ser aproveitado para debater os problemas de fundo das instituições de matriz portuguesa em Macau
RAQUEL CARVALHO
“A Livraria não está salva”. Esta percepção parece ser unânime no seio da comunidade portuguesa e foi expressa ao JTM pela voz da presidente da Casa de Portugal em Macau, Maria Amélia António.
Um dia depois do jornal “Ponto Final” ter avançado a notícia sobre a suspensão da venda da Livraria Portuguesa, não são muitos aqueles que respiram de alívio. E se à primeira vista poderia ser uma boa nova, quase todos vêem o recuo do Instituto Português do Oriente (IPOR) como o adiar de uma decisão, simplesmente porque, actualmente, a conjuntura económica e a situação do mercado imobiliário não são as mais favoráveis. O passo do IPOR surge, na opinião da maioria, apenas como um balão de oxigénio para que o debate sobre o funcionamento das instituições de origem portuguesa se faça. Quem continua surdo, cego e mudo é o Estado Português, que ainda não assumiu publicamente qualquer posição.
“Satisfeita” pela venda ter sido travada, Maria Amélia António considera que o recuo proporciona um “intervalo” que deve ser preenchido com uma discussão séria, de modo a traçar-se um caminho definitivo para a Livraria Portuguesa. Mas apesar de ter vencido uma primeira batalha, a presidente da Casa de Portugal sabe que a guerra está longe do fim, revelando-se “profundamente desapontada” relativamente à posição assumida pelo presidente da Fundação Oriente, Carlos Monjardino.
Além daquele responsável ter afirmado que nem a onda de críticas que se levantou em Macau, nem mesmo a petição “online”, um instrumento de protesto contra a alienação do espaço da Livraria que contou com mais de 3500 assinaturas, foram questões ponderadas na Assembleia Geral do IPOR, reunião em que foi decidida a suspensão da venda, Monjardino disse ainda, de acordo com o Ponto Final, que a oposição da comunidade tratava-se apenas de “uma questão sentimental”.
“É uma afronta. Magoa, irrita e causa estragos na relação entre a comunidade e a Fundação Oriente”, responde Maria Amélia António a quem se limitou a ter, segundo a presidente da Casa de Portugal, “uma atitude meramente economicista”. A dirigente continua a estar incrédula perante a insensibilidade de Carlos Monjardino: “não sei como é que ele não percebe ou finge não perceber a importância estratégica daquela travessa”.
A atitude do presidente da Fundação do Oriente foi, de resto, avaliada pelo presidente da Associação dos Macaenses, Miguel de Senna Fernandes, como “deselegante”, frisando que “as pessoas que criticam [a posição do IPOR] não estão mal informadas, as pessoas nem se quer foram informadas”. O advogado recorda ainda que a comunidade tem toda a “legitimidade para se insurgir”, tanto mais perante a “ausência de diálogo da Fundação Oriente”.
CIFRÕES. A “falta de respeito” por parte do IPOR e do próprio Estado Português em relação “à comunidade de Macau” é também um aspecto salientado pelo arquitecto Carlos Marreiros, que afirma não ter quaisquer “razões objectivas para se sentir feliz, porque a atitude do IPOR não mudou”.
De acordo com o actual responsável do Albergue da Santa Casa da Misericórdia, trata-se de um recuo estratégico feito ao som do “vil e sonante metal”, depois dos interessados em adquirirem a Livraria por 50 milhões de patacas terem desistido. “Parece não ter valido a pena a mobilização, debate e amor revelado pela Livraria”, continua o arquitecto, uma vez que as “razões de mercado” foram e são as únicas a comandar. A decisão tomada pelo IPOR servirá, assim, somente para “ganhar algum tempo”, observa Carlos Marreiros.
Uma posição partilhada pelo antigo director do Instituto Cultural, Jorge Morbey, que também considera que o “presidente da Fundação Oriente só é sensível ao dinheiro e ao lucro”, pelo que a “questão continua a ser a mesma: o Estado português deve ou não partilhar desta decisão?”. Para Carlos Marreiros, o Governo de Portugal tem a obrigação de “assumir uma postura clara”, pois, segundo explica, “as instituições de matriz portuguesa não deviam ser abandonadas por ‘dá cá aquela palha’”.
A tentar passar despercebido, nas palavras de Maria Amélia António, o “Estado Português continua a estar em dívida com a comunidade”, lembrando que “todas as cartas devem ter uma resposta”. Recorde-se que a Casa de Portugal em Macau enviou, nos últimos meses, duas cartas, um dossiê de imprensa e uma petição ao Governo português. O resultado até agora? Uma posição de “arrogância e falta”, um “vazio de esclarecimentos”, um silêncio total.
VISÃO DE FUTURO. A postura “minimalista” do Estado de Portugal é precisamente um dos aspectos que, de acordo com Miguel de Senna Fernandes, deve ser corrigida. Aliado a isso, o presidente da Associação dos Macaenses defende uma “comunidade mais participativa nas actividades” e que deve assumir responsabilidades no gizar de uma “estratégia cultural”.
Este ano e o próximo - recorde-se que a actual concessão da Livraria Portuguesa termina em 2010 - devem ser usados, considera, por seu lado, o presidente do Conselho das Comunidades Portuguesas, Fernando Gomes, para a comunidade local reflectir e encontrar “soluções viáveis e dignificantes”, afirmando que o que interessa não é só o local mas também o seu funcionamento, pois “não queremos uma Livraria esquelética”. O conselheiro das Comunidades está convicto de que, até ao final do próximo ano, “haverá tempo para resolver esta questão” e aponta como um “primeiro passo” o diálogo do Cônsul-Geral de Portugal na RAEM com a comunidade e com as várias entidades envolvidas.
O debate intenso destas questões é mesmo o antídoto sugerido por todos, tanto Carlos Marreiros como Jorge Morbey defendem que os amigos e utentes da Livraria Portuguesa devem continuar a discussão e, através de todos os meios possíveis, pressionar o Estado Português. O antigo presidente do Instituto Cultural teme que se a especulação imobiliária voltar a uma boa forma, “a Livraria possa ser desfeita”, indicando duas soluções para prevenir essa hipótese latente. Uma seria anular a deliberação sobre a venda da Livraria por parte da Assembleia Geral do IPOR e outra seria o divórcio entre o Estado e a Fundação Oriente.
CONCURSO PÚBLICO. Depois de anunciada a suspensão da venda da Livraria Portuguesa, Carlos Monjardino revelou ainda que a concessão daquele espaço será levada a concurso público até ao final do próximo ano, altura em que a concessão agora nas mãos de Aloísio da Fonseca, ex-presidente do IPOR, termina. Este é um aspecto que Carlos Marreiros vê com agrado, uma perspectiva partilhada tanto por Maria Amélia António como por Jorge Morbey.
O antigo presidente do Instituto Cultural ressalva, no entanto, que apesar de positivo, “tudo dependerá das condições anunciadas aos concorrentes”. “O preço final dos livros e a maneira como o concessionário pode oferecer obras de todas as editoras dos países de língua portuguesa” são duas das premissas que, na opinião de Jorge Morbey, devem ser analisadas.
A cautela é mesmo um sentimento comum, a presidente da Casa de Portugal em Macau também vê com bons olhos o concurso público, agora resta saber o modelo que será adoptado. Maria Amélia António recorda que a Livraria deve “servir uma comunidade de língua portuguesa” e tem de ser “vista e gerida nessa perspectiva”. O espaço, a diversidade dos livros que possui e a forma de divulgação e dinamização são alguns dos aspectos que devem ser discutidos com a maior premência, salienta.
Uma outra notícia que a Presidente da Casa de Portugal encara positivamente é a transferência da sede do IPOR de Lisboa para Macau, uma decisão também aprovada em Assembleia Geral esta semana. Maria Amélia Antónia refere, sem rodeios, que a “sede nem nunca devia ter saído de cá”, dizendo que acha “bem que volte”. Essa mudança pode até, espera a dirigente, “facilitar o encontro entre instituições e o forjar de parcerias” importantes para Macau.
Por enquanto, será vendido o 7o andar do edifício da Livraria Portuguesa, um apartamento que tem vindo a funcionar como escritório e armazém, sinal de que, como diz a presidente da Casa de Portugal, “o assunto ainda não está resolvido”.
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