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  N°3013 (Nova Série), Quinta-Feira, 11 de Dezembro de 2008
ENTREVISTA A CARLOS MONJARDINO
INSTITUIÇÃO NÃO ESTÁ A SAIR DO TERRITÓRIO
“A Fundação Oriente não é só Macau”

Directo, mas também crítico em relação a quem aponta o dedo à actuação da Fundação Oriente em Macau. Foi desta forma que se apresentou ontem o presidente da instituição na entrevista que concedeu ao JTM. Carlos Monjardino aproveitou para deixar a garantia de que, no próximo ano, a fundação vai aumentar as actividades na RAEM

EMANUEL GRAÇA

- Permita-me que comece com uma entrada de leão: a Fundação Oriente (FO) está a sair de Macau?
- Isso é uma pergunta que me irrita profundamente (risos). A FO não está sair de Macau. A FO faz exactamente as mesmas coisas que vem fazendo há algum tempo e é bom lembrar que já cá estamos há 20 anos.
- Por exemplo, vendeu as casas no Tap Seac.
- A função da FO foi, durante algum tempo, garantir que certo património era conservado. Foi isso que aconteceu, numa primeira fase, com o edifício onde está hoje o consulado [de Portugal], que era nosso e que depois passou para o Estado português, e com as casas no Tap Seac, que nós mantivemos durante vários anos. Entretanto, há algum tempo, a zona do Tap Seac foi considerada património classificado e, a partir daí, o nosso papel esgotou-se: as casas já não poderiam ser alteradas ou destruídas. Na altura, não nos passou pela cabeça vender, mas o que é certo é que tivemos ofertas.
- De quem? Entidades privadas?
- Sim. Não demos muito seguimento a estas ofertas, até que houve uma que nos pareceu mais séria e que preservava a arquitectura das casas. A finalidade que lhes iria ser dada parecia dar garantias em termos da conservação dos imóveis.
- De quem era a proposta?
- Não me cabe estar a divulgar. Mas recebemos três propostas no total. Pensou-se nisso e, a certa altura, tínhamos que dar – como é nossa obrigação – opção prioritária à RAEM. Ela fez uso disso e comprou o conjunto.
- O argumento para a venda das casas no Tap Seac poderia também servir para a venda da Casa Garden...
- A Casa Garden é a delegação da FO em Macau. Não há razão para pensar nisso. Uma coisa é a sede da fundação aqui, outra coisa é um conjunto de edifícios que maioritariamente estavam até arrendados à RAEM.
- E o Teatro D. Pedro V?
- Não era nosso. Fizemos a recuperação de fundo, onde se gastaram milhões de patacas, e a certa altura entregámo-lo ao Instituto Cultural. A propriedade não era nossa, nem do Governo – era de uma associação local.
- O dinheiro da venda das casas no Tap Seac vai ser destinado às actividades da FO em Macau?
- Não necessariamente. A FO não é só Macau. Esse é outro erro! Nos estatutos está escrito realizar actividades em Portugal e em Macau. Durante 20 anos, mais de metade do orçamento da FO foi [gasto] aqui. É normal que, ao fim de um certo período, a fundação decida que tem que fazer algo como o que fez em Portugal: um museu, ainda por cima ligado ao Oriente. Não se vai buscar dinheiro daqui para pôr acolá. O dinheiro é da fundação. O investimento em Portugal eventualmente podia ter sido menor, mas era altura de o fazer, ao fim de 20 anos. Portugal tinha falta de um tipo de museu como aquele, como se tem visto pela afluência. E o museu, se está ligado a algo, é a Macau e à China. Não nos podem vir pedir que façamos tudo em Macau. Além disso, quando havia aqui a administração portuguesa, nós éramos chamados a subsidiar coisas que, entretanto, são feitas exclusivamente pelo Governo da RAEM, e com razão.
- Nesses casos, o espaço da Fundação Oriente foi tomado pela Fundação Macau (FM).
- De alguma maneira, como também as nossas receitas foram tomadas, desde 1996, pela FM. Essa é outra coisa que as pessoas se esquecem – que já não vivemos das receitas que vêm de Macau.
- Aceita as acusações de que a FO veio buscar os seus fundos a Macau e agora aplica-os lá fora?
- Não aceito, porque isso é um perfeito disparate. A FO foi proposta por Stanley Ho, quando estávamos a discutir o contrato [de concessão do monopólio] do jogo. Não foi nada que a Administração na altura exigisse – que isso fique bem claro! Não fui eu que pedi ao Sr. Stanley Ho para arranjar uma fundação; foi ele que me o propôs. Pensei nisso, falei com o Governo de Macau e chegou-se à conclusão que era bom criar uma fundação cultural. Foi o Sr. Stanley Ho que disponibilizou o dinheiro, não era uma contrapartida que estivesse em cima da mesa. Esse dinheiro [1,6 por cento das receitas do jogo], se não tivesse ido para FO, teria ido para a Sociedade de Turismo de Jogos de Macau [que então detinha o monopólio do jogo no território]. Em 1996, por razões variadíssimas – sobretudo políticas –, chegou-se à conclusão que a FO não tinha sede em Macau e que era altura de encontrar outra solução para canalizar as receitas que íamos recebendo daqui [através do jogo]. Fez-se um acordo e a FM passou a receber essa verba [como continua a acontecer, passando as novas concessionárias de jogo a também estarem obrigadas a isso]. Hoje, a FO vive das aplicações financeiras das suas reservas.
- Qual é o peso de Macau nas contas da FO?
- É certamente menor este ano do que foi há dois anos.
- E será menor em 2009?
- Julgo que vai ser ao contrário, porque há uma instituição de prémios, há algumas exposições que vão ser feitas, há por ventura um ou dois grupos musicais que vêm cá... Porém, vamos passar por um mau bocado talvez no próximo ano e meio [por causa da crise financeira internacional]. Vamos ser cautelosos, porque possuímos recursos limitados e temos que tratar deles o melhor possível. Mas, em 2009, vamos fazer certamente mais do que fizemos em 2008 em Macau.
- Em 2008, isso aconteceu por causa do museu?
- Sim. Todos os esforços de 90 por cento do pessoal da FO focalizaram-se no museu. Isso foi em muito a razão pela qual reduzimos um pouco a actividade aqui.
- Como vão funcionar os prémios que vão instituir?
- É algo que tem que ser visto com o júri, que não existe ainda. O objectivo do primeiro prémio é escolher um aluno universitário local que queira fazer um doutoramento numa universidade de língua portuguesa e que receberia uma bolsa para isso, embora os detalhes da ideia ainda estejam a ser amadurecidos. Outro prémio seria destinado a jornalistas que façam uma peça particularmente interessante sobre Macau. Um terceiro prémio seria para quem realizasse um ensaio sobre o território de interesse económico, social ou cultural.

Museu do Oriente quer parceria com Museu de Arte da RAEM

O presidente da Fundação Oriente [FO] assume estar surpreso com a afluência que se tem verificado no “seu” Museu do Oriente, inaugurado em Maio em Lisboa, e que no primeiro mês recebeu 37 mil visitantes. Frisando que “a Sala Macau é a maior e a principal do museu”, Carlos Monjardino acrescenta que foi apresentada recentemente uma proposta para troca de exposições com o Museu de Arte de Macau, estando à espera de resposta. No entanto, enganem-se aqueles que pensam que o museu possa ser uma fonte de receitas para a FO: “Há-de ser sempre uma actividade não rentável”, considera Monjardino, acrescentando que a fundação está ainda a “digerir” a instituição. De resto, o responsável não tem dúvidas que, “na parte de etnografia, o Museu do Oriente já é um dos maiores” da Europa, mas haverá sempre dinheiro para adquirir novas peças, porque “uma colecção nunca está completa”. A fechar, Monjardino afasta-se da polémica sobre a ausência de representação oficial do Governo da RAEM aquando da abertura do museu. “Estava o embaixador da República Popular da China. Sei que ficaram satisfeitos por ter lá o museu e as pessoas que representam Macau em Portugal muitas vezes já me disseram isso. Isso chega-me. A pessoa que eu gostava de ter tido na abertura – o Chefe do Executivo – não podia estar lá, como já me tinha dito”, remata.

Associação de jovens locais vai ter apoio da FO em Timor

O projecto “Raio de Sol”, desenhado pela associação de jovens da RAEM “NaTerra” para aplicar em Timor, vai ser apoiado pela Fundação Oriente (FO). Ontem, o grupo apresentou o projecto ao presidente da FO, que garantiu ao JTM existir disponibilidade para apoiar o projecto, ligado ao desenvolvimento sustentável. Este integra-se na lógica da FO para Timor, “menos cultural e mais social”, explica Carlos Monjardino. “Vamos fazendo algumas actividades no anfiteatro da fundação em Díli, mas estamos mais preocupados com a formação de jovens e de antigos combatentes que agora precisam de ser reciclados para a vida civil”, explica. “Daqui a algum tempo, por ventura, haverá uma componente cultural maior”, acrescenta. Situação diferente acontece na Índia, onde a delegação local da FO participa na recuperação de igrejas portuguesas e templos hindus e organiza eventos culturais, além de ter uma equipa de quase 20 professores a ensinar português nas escolas como disciplina não obrigatória, refere Monjardino.

Confissões de Monjardino na primeira pessoa

É Carlos Monjardino que o admite: “A Fundação Oriente [FO] está muito identificada comigo”. Isso “às vezes é mau”, reconhece, acrescentando ser “evidente” que alguns meios de comunicação social de Macau dão “má imprensa” à FO. “O porquê era o que eu gostava de saber”, sublinha. Monjardino, que passou por Macau como Secretário-Adjunto para a Economia, Finanças e Turismo no final da década de 80 do século passado, sublinha que não esperava o “boom” que aconteceu após a transição. “Mas houve muitas alterações: em termos do jogo e da abertura das fronteiras com a China Continental”. Ou seja, tal não é espelho de uma eventual falta de capacidade da administração portuguesa, mas antes fruto daquilo que “a união política [com a China Continental] conseguiu trazer”. Porém, Monjardino admite que “este volume de betão” o choca “um bocado”. Sobre a comunidade portuguesa local, elogia o elevado número de jovens que existe actualmente. Por fim, volta a garantir que nunca quis ser governador de Macau e que não sonhou com outros voos políticos em Portugal. Elogia o último governador de Hong Kong, Chris Patten, pela forte personalidade em tempos difíceis, mas diz que a Portugal não faltou um Patten, mas visão na altura da assinatura da Declaração Conjunta, por “não se terem negociado acordos de cooperação a nível económico com a China”.

 


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