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casademacau

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  N°2848 (Nova Série), Domingo, 29 de Junho de 2008
A Yakuza moderna - Destaca-se a facção Yamaguchi-gumi


ANTÓNIO MOTA*

Fundada em 1915 por Harukichi Yamaguchi, a Yamaguchi-gumi não parou de reforçar o seu poder durante as décadas seguintes, através de processos analisados na semana anterior.
Para esse reforço teve papel decisivo a ascensão a oyabun de Kazuo Taoka, que liderou a Yamaguchi-gumi desde 1946 até falecer (1981), vítima de um enfarte cardíaco. Foi o terceiro oyabun da facção e sucedeu a Noburu Yamaguchi, que faleceu com apenas 33 anos de idade (1946).
Taoka sobreviveu a várias tentativas de assassinato, incluindo aquela em que foi alvejado no pescoço com um tiro de uma chaka ou hajiki (“arma de fogo”) de calibre 0,38, disparado por um elemento da Matsuda, um clã rival que jurou vingar-se da Yamaguchi-gumi pela morte do seu oyabun.
Esse incidente registou-se em Julho de 1978, num clube nocturno de Kyoto baptizado de “Bel Ami”, onde Taoka, na altura com 65 anos de idade, assistia a um espectáculo de dança limbo (dança típica das Caraíbas). Muito embora Taoka estivesse rodeado de guarda-costas, o jovem atirador furtivo Kiyoshi Narumi, 25 anos, conseguiu aproximar-se dele, disparar e, miraculosamente, pôr-se em fuga.
Taoka sobreviveu ao atentado e viria a descobrir-se que Narumi era um elemento da Matsuda que fora indigitado para fazer o ajuste de contas pelo assassinato do líder desse clã. O jovem Narumi acabaria por ser brutalmente assassinado e o seu corpo foi encontrado, semanas depois, no meio de uma floresta perto de Kobe.
Se, neste caso, a acção terá sido de retaliação, nem sempre assim foi. Embora o Yamaguchi-gumi fosse na altura (e continua a ser!) o sindicato mais poderoso no Japão, houve quem se tivesse arriscado a tentar a sua sorte.
Em 1980, a Yamaguchi-gumi quis expandir o seu território, com a abertura de uma sede na capital da ilha de Hokkaido (Ezo, antes da Era Meiji) mas, por infelicidade sua, cerca de 800 elementos de “gangs” locais uniram-se e, em jeito de desafio, foram aguardar pela chegada dos membros da Yamaguchi-gumi ao aeroporto de Sapporo (cidade capital de Hokkaido) para os escorraçar. As autoridades tiveram que mobilizar 2.000 polícias de choque, devidamente apetrechados, para intervir numa eventual situação de motim. Os polícias posicionaram-se entre os dois grupos e conseguiram impedir que aquela iniciativa dos “gangs” de Hokkaido se transformasse numa contenda, que teria de ser evitada a todo o custo. Foi devido a essa demonstração de força que a Yamaguchi-gumi acabou por não se instalar em Sapporo.
VIÚVA DE TAOKA ASSUME A LIDERANÇA. Mais atrás foi dito que Taoka dirigiu a facção Yamaguchi-gumi durante 35 anos, entre 1946 e 1981, ano em que faleceu. O seu funeral ficou registado como um acontecimento célebre: estiveram presentes os mais altos dignitários da hierarquia da Yamaguchi-gumi vindos de todo o Japão, bem como figuras de proa do mundo do entretenimento (actores, cantores e músicos). Pelo sim e pelo não, a polícia decidiu mobilizar um efectivo de 1.300 agentes para intervir, caso fosse necessário.
Após a sua morte, e aproveitando-se do costumeiro luto por um período de três meses, as autoridades policiais prenderam cerca de 900 membros da Yamaguchi-gumi por todo o Japão e, posto isso, tentaram convencer alguns desses detidos a desempenharem o papel de informadores. O objectivo dessa manobra era o de recolher informações secretas sobre a seita, para depois a desmantelar.
Taoka tinha escolhido o seu sucessor antes de morrer - um indivíduo chamado Yakamen, o número dois da facção. Todavia, a sucessão não se materializou em devido tempo, visto que o indigitado para o cargo encontrava-se numa cadeia, a cumprir uma pena de prisão, cujo otsutome (“termo de prisão”) só terminaria lá para finais de 1982. Durante o impedimento de Yakamen e, para o espanto de todos, incluindo a polícia, Fumiko, viúva de Taoka, decidiu assumir temporariamente o cargo de oyabun para evitar conflitos internos que poderiam resultar em eventuais disputas pelo poder, e conseguiu manter a disciplina e a ordem até o dia em que foi escolhido o sucessor definitivo de Taoka.
Abre-se aqui um parênteses para esclarecer que mulheres não podiam ocupar cargos dentro da estrutura hierárquica da Yakuza, na medida em que as mentalidades ditavam que o “sexo oposto” não era de confiar em tudo que requeresse sigilo absoluto. Por este motivo, as esposas dos yakuza estavam a leste de todas as actividades delituosas em que os seus maridos se encontravam envolvidos. As únicas mulheres que mereciam alguma consideração e respeito por parte dos elementos dos diversos clãs eram as esposas dos seus respectivos oyabun, conhecidas por one-san ou “irmãs mais velhas” que, em casos pontuais, tal como aconteceu com Fumiko Taoka, podiam, na qualidade de viúvas, ocupar temporariamente o cargo de oyabun, até a nomeação de um novo chefe.
Yakamen acabou por não suceder a Taoka: morreu de cirrose hepática. A sua morte abalou toda a estrutura da Yamaguchi-gumi.
Durante os 35 anos do regime de Kazuo Taoka, a Yamaguchi-gumi controlava 2.500 empresas comerciais, indústrias sofisticadas de jogos de fortuna e de azar, bem como desenvolveu actividades de agiotagem. Outrossim, fez grandes investimentos nas áreas do desporto e do entretenimento. As empresas tituladas por Taoka funcionavam de acordo com os padrões adoptados pela Yakuza há mais de 300 anos - utilizavam o sistema de parentesco oyabun-kobun para gerir o dia-a-dia do sindicato.
A Yamaguchi-gumi auferia uma receita bruta anual superior a 460 milhões de yens e o modelo de gestão dos seus negócios era invejável aos olhos de grandes instituições, tais como a La Cosa Nostra e a General Motors.
Nessa altura, a Yamaguchi-gumi dispunha de 103 quadros de chefia e essas pessoas foram seleccionadas do seio de um universo composto de mais de 500 grupos de criminalidade organizada.
Actualmente, a Yamaguchi-gumi dedica-se ao tráfico de substâncias estupefacientes, com especial destaque para a metanfetamina, bem como às actividades de branqueamento de capitais, contrabando e pornografia.
A manipulação de resultados de desafios de basebol, corridas de cavalo e hastas públicas de propriedades são ocupações de rotina da Yakuza, a par da confiscação de bens alheios, nomeadamente imobiliária, centros de diversões, hospitais e escolas inglesas.
Durante o mandato de Fumiko Taoka e até finais de 1983, o número de adeptos do Yagamuchi-gumi aumentou de 587 para 13.346 e o sindicato controlava 36 prefeituras do Japão, de um total de 47. Naquele ano (1983), o clã era gerido por uma comissão constituída por oito pessoas altamente posicionadas dentro da estrutura dessa seita e a engrenagem da gestão funcionava debaixo da tutela de Fumiko Taoka.
A dada altura, o clã teve que eleger um novo padrinho. Masahisa Takenaka foi escolhido para exercer as funções de oyabun, em detrimento do seu opositor, Hiroshi Yamamoto. Os elementos do clã preferiram o espírito combativo que caracterizava Takenaka ao do interi (“intelectual”) yakuza de Yamamoto.
Hiroshi Yamamoto não se conformou com essa derrota. Assim, em 19 de Junho de 1984, reuniu-se com oito dos seus principais colaboradores num dos melhores restaurantes de Kobe, formou a facção Ichiwa-kai e atraiu 13.000 adeptos da Yagamuchi-gumi para o clã que acabara de criar. Num abrir e fechar de olhos, a Ichiwa-kai passou a ser o terceiro sindicato de crime mais poderoso do Japão.
Para além de negócios lícitos, a Ichiwa-kai dedicava-se às actividades de extorsão, indústria do sexo, tráfico de substâncias estupefacientes, venda de armas, etc.

Funeral de um alto membro da Yamaguchi-gumi em Kobe, que faleceu em 2002

Kazuo Taoka liderou a Yamaguchi-gumi desde 1946 até ao seu falecimento, em 1981

* Estudioso em Criminologia. Escreve
neste espaço aos Domingos


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