Um ano, um mês e um dia depois do 11 de Setembro, o sangrento atentado perpetrado em Bali, na Indonésia, por um grupo radical islâmico, mostrou ao mundo que a guerra contra o terrorismo está longe de terminar
Para trás ficou um ano marcado por alterações profundas
no sistema de alianças entre Estados para a prossecução
da luta contra o terrorismo transnacional, por uma nova escalada no conflito
do Médio Oriente e pela abertura, no sudeste asiático,
de uma segunda frente da guerra contra o terror.
Depois dos atentados de 11 de Setembro, a comunidade internacional mobilizou-se em torno dos Estados Unidos, mas esse apoio sofreu alguns golpes com a radicalização do discurso e das acções do presidente norte-americano, George W. Bush.
A recusa de Washington em aceitar a jurisdição do Tribunal Penal Internacional (TPI) criou fissuras nas tradicionalmente sólidas relações transatlânticas, entre a Europa (à excepção do Reino Unido) e os Estados Unidos.
O tom belicista e unilateralista utilizado contra o Iraque, o envio de importantes contingentes militares para vários pontos do mundo e o tratamento de centenas de prisioneiros afegãos à margem das Convenções de Genebra, são exemplos de iniciativas dos Estados Unidos que desagradaram a velhos e novos aliados.
Novas alianças equivalem a novas fricções, como exemplifica a outrora impensável aproximação dos Estados Unidos a países como a Rússia e a China, que aproveitaram a ocasião para incluir na luta anti- terrorista a repressão de antigos separatismos internos, respectivamente na Tchetchénia e no Xinjiang, desencadeando os protestos da Europa.
Por outro lado, a persistente incapacidade para localizar Usama bin Laden vivo ou morto, lembrada pela regular divulgação de alegadas mensagens do líder da Al-Qaida, a multiplicação de ataques e atentados anti-ocidentais em vários pontos do mundo e a falta de vontade dos Estados Unidos em se envolverem na gestão pós-conflito do Afeganistão, onde continua a grassar a instabilidade política e social, apontam para um balanço moderado da luta anti-terrorista.
Os Estados Unidos abriram entretanto uma segunda frente nesta luta, enviando 3.000 militares para as Filipinas, e contingentes menores para a Malásia e Singapura, países do sudeste asiático - paraíso do fundamentalismo islâmico, segundo Bush -, que passaram a ocupar um lugar de destaque na política externa norte-americana inédito desde o fim da Guerra Fria.
A África Oriental está também na mira de Washington, especialmente países como o Sudão e a Somália. Depois do envio de centenas de militares no princípio do ano para o Iémen, 400 militares norte-americanos estabeleceram este mês um estado-maior da coligação anti-terrorista no golfo de Adén (Djibuti), a bordo do USS Mount Whitney, que vai trabalhar em articulação com o contingente de 900 homens já estacionados no país.
Os êxitos registados limitam-se à guerra financeira contra as organizações terroristas, com os congelamentos de contas de dezenas de organizações e indivíduos suspeitos, nomeadamente pela União Europeia e pelos Estados Unidos, e ao desmantelamento de presumíveis células terroristas e detenção dos seus membros na Alemanha, França, Espanha, Reino Unido e Holanda.
Mas estas guerras também não estão ganhas. No plano do financiamento, Washington continua a insistir junto da Arábia Saudita, frequentemente apontada como principal financiador da Al-Qaida, na necessidade de fazer mais para controlar as remessas de dinheiro.
No plano da caça aos terroristas, a detenção de 2.700 membros da Al-Qaida em todo o mundo não evitou que organizações islâmicas radicais perpetrassem ao longo do ano dezenas de atentados em todo o mundo.
Além de Bali, onde a explosão de dois carros armadilhados frente a uma discoteca em Kuta fez mais de 190 mortos e 350 feridos, o sequestro e assassínio do jornalista norte-americano Daniel Pearl em Carachi, no Paquistão, a tomada de 800 reféns no teatro moscovita de Dubrovka por um comando tchetcheno e o duplo atentado anti-israelita em Mombaça, no Quénia, fizeram as primeiras páginas dos jornais ao longo do ano.
Depois das muitas falhas apontadas ao FBI e à CIA na prevenção do 11 de Setembro, George W. Bush anunciou em Novembro a criação de um super-ministério da segurança, com entrada em funções marcada para Fevereiro, que vai fundir 22 agências governamentais num único organismo encarregado de analisar ameaças, proteger fronteiras e aeroportos e coordenar a resposta nacional a futuras emergências.
Vários foram os países que na sequência do 11 de Setembro reforçaram a sua segurança interna, através do endurecimento das leis relativas à imigração, controlo de fronteiras, segurança aérea, detenção sem culpa formada, controlo de comunicações telefónicas ou via internet e buscas a residências, entre outros, suscitando receios de violação de alguns dos direitos fundamentais.