“Tugas” sem glória e voleibol português a encantar no Mundial

Uma imagem marca, ainda com grande intensidade, a memória desportiva de Portugal, no ano que está prestes a terminar: o soco de João Vieira Pinto ao árbitro argentino Angel Sanchez, prenúncio de uma saída sem glória do Mundial de futebol por parte dos “tugas”

A poucos dias do final de 2002, o “fatídico” 14 de Junho, com a expulsão do jogador português e a derrota ante a Coreia do Sul, assinala uma recordação desagradável, mas bem presente. Candidato ao título, Portugal acabava de deixar a competição pela porta baixa.

Em ano de Campeonato do Mundo de futebol, com toda a normalidade o destaque foi para o torneio que decorreu na Coreia do Sul e Japão, e que culminou com o “penta” do Brasil, de Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho e Roberto Carlos, entre outros.

Portugal, com uma inesperada derrota com os EUA (2-3) e uma goleada à Polónia (4-0), precisava de ganhar à Coreia do Sul para prosseguir em prova mas acabou derrotado (0-1), reduzido a nove (expulsões de João Vieira Pinto e Beto) e com a moral bem em baixo.

Para a recuperar, tem agora a ocasião soberana do Euro’2004, em Portugal, e para isso contratou o treinador dos campeões do Mundo, Luiz Felipe Scolari.

O Euro’2004 já “mexe” e os últimos meses foram de intenso trabalho na construção ou remodelação dos dez estádios eleitos. A nova Luz recupera tempo de forma notável e apenas o mais complicado estádio de Braga, incrustado na pedra do Monte Castro, tem atraso assinalável.

A “novela” do financiamento da Luz animou o início do ano, mas teve de ceder a ribalta à fase decisiva do processo contra João Vale e Azevedo, com o ex-presidente do Benfica a ser condenado, a 17 de Abril, a quatro anos e meio de prisão, pelo “caso Ovchinikov”, isto quando ainda nem começou o julgamento do “caso Euroárea”.

Já em Dezembro, passou a ter por “vizinho” de prisão na Judiciária, ainda que por breve tempo, o presidente do Guimarães, Pimenta Machado, acusado de peculato e falsificação de documentos.

Uma caução de um milhão de euros permitiu-lhe a liberdade, um dia depois, mas poderá ir a julgamento.

Quem também foi várias vezes manchete da imprensa, e não só desportiva, foi o goleador brasileiro do Sporting, Mário Jardel, que esteve afastado dos relvados os primeiros quatro meses após o arranque da época, alegando problemas psicológicos decorrentes do seu processo de divórcio.

“Supermário” foi uma das pedras de toque do título do Sporting, na época 2001/2002 (em que foi o “artilheiro” europeu, com 42 golos), mas depois do Verão tem sido uma pálida imagem de si mesmo... aliás como o clube do “leão”, apenas quinto num campeonato que está a ser folgadamente liderado pelo FC Porto.

O Boavista fez em 2001/2002 uma bela campanha na Liga dos Campeões e em 2003/2003 conseguiu, com o FC Porto, a proeza inédita de duas equipas nacionais chegarem aos oitavos-de-final da Taça UEFA, atenuando o desaire este ano na “liga milionária”, pela primeira vez sem representantes portugueses, pois “leões” e “panteras” saíram de cena na última eliminatória.

Um “toque” português, também, nos sucessos da melhor equipa do Mundo do ano - o Real Madrid, claro, vencedor da Liga dos Campeões, Supertaça Europeia e Taça Intercontinental.

Luís Figo, um dos estrategos dos “merengues”, não viria no entanto a repetir o título de melhor jogador FIFA conquistado em 2001, naturalmente perdido para o brasileiro Ronaldo, seu novo colega de equipa, que já arrebatara o troféu em 1996, então ao serviço do FC Barcelona, e em 1997, com a camisola do Inter de Milão..

A nível de modalidades, o destaque vai sem dúvida alguma para o voleibol, com Portugal a atingir um brilhante oitavo lugar no Mundial que se disputou na Argentina.

Considerada justamente a revelação da prova, a selecção portuguesa viu João José ser eleito o melhor blocador e passou a ser olhada por todos com muito mais respeito, discutindo o jogo com formações como a Itália, tricampeã mundial em título, a Jugoslávia, campeã olímpica, e a Rússia, vencedora da Liga Mundial, em que Portugal também participou. O Brasil é o novo campeão do Mundo.

O andebol também teve um ano desportivamente interessante, com o nono lugar de Portugal no Europeu em que a Suécia conquistou o “tri”.

Nos bastidores, em vésperas da organização de um Mundial (de 20 de Janeiro a 3 de Fevereiro) em Portugal, as coisas não se passaram tão bem, com constante confronto entre a Federação de Andebol de Portugal e a Liga Portuguesa de Andebol pela organização do Nacional.

A intervenção do Governo obrigou a uma paz estratégica, a bem do Mundial, mas em Março tudo indica que a luta pela supremacia na modalidade vai regressar.

Tradicionalmente a modalidade de maior projecção, o atletismo cedeu protagonismo, muito por força de 2002 não ser ano olímpico nem de Mundiais.

Portugal esteve relativamente apagado nos Europeus de pista coberta (Viena) e ar livre (Munique), com três medalhas em cada - mas metade desse pecúlio foi assegurado pelos naturalizados Francis Obikwelu (nigeriano) e Naide Gomes (são-tomense).

Em Viena, Rui Silva foi campeão (1.500 metros), Naide Gomes (pentatlo) e Carla Sacramento (3.000 metros) vice-campeãs. Em Munique, Rui Silva foi terceiro nos 1.500 metros e Obikwelu vice- campeão de 100 e 200 metros.

Os grandes momentos, a nível mundial, aconteceram fora das grandes competições, com os recordes de provas tão emblemáticas como a maratona (para o norte-americano Khalid Kanouchi e o inglesa Paula Radcliffe) e os 100 metros (para o norte-americano Tim Montgomery).

Portugal teve também medalhas de bronze no Mundial de ciclismo (Sérgio Paulinho, no contra-relógio de esperanças), prata no Mundial de piscina curta (José Couto, nos 50 metros costas) e bronze no Europeu de natação de juniores (Henrique Neiva, nos 200 metros bruços).

Destaque ainda, no ciclismo, para o sexto lugar de José Azevedo no Tour em que o norte-americano chegou ao penta, e para a projecção internacional da Maia, liderada por Claus Moller, o vencedor da Volta a Portugal.

Mário Cippolini também fez história, ao conquistar, aos 35 anos, o campeonato do Mundo, comprovando assim, em véspera de retirada, que o italiano é o melhor sprinter da actualidade.

Na Fórmula 1, o alemão Michael Schumacher somou sucessivos recordes, numa “época perfeita”: pentacampeonato, igualando Fangio, isto depois de 11 vitórias no ano, em 17 corridas, sempre no pódio.

Aos 33 anos, passou a ter 64 vitórias em grandes prémios, liderando também nas categorias dos pódios e pontos, e apenas precisa de mais cinco “pole-positions” para superar o lendário Ayrton Senna.

O melhor piloto português, no conjunto das especialidades, foi Carlos Sousa, fácil campeão de todo-o-terreno e 5º no último Dakar.

Num dos mais espectaculares campeonatos do planeta, a liga norte- americana de basquetebol, os LA Lakers conseguiram o terceiro título consecutivo, mas o seu treinador, Phil Jackson, fez ainda melhor - para ele, trata-se do terceiro “tri”, depois do fazer duas vezes com os Chicago Bulls, de Michael Jordan.

Negra foi a participação dos Estados Unidos no Campeonato do Mundo de Basquetebol masculino, em Indianapolis, onde averbaram frente à Argentina a primeira derrota em 59 jogos desde que actuam com jogadores da NBA em Jogos Olímpicos ou Mundiais. Seguiram-se derrotas perante a Jugoslávia, nos “quartos”, e Espanha, no jogo para o quinto e sexto lugares. O pior resultados dos EUA desde a criação da prova, em 1950.

Outro grande momento do ano foi o triunfo de Pete Sampras no Open EUA em ténis, no que foi o seu 14º sucesso em torneios do Grand Slam. Depois de ter sido o mais jovem vencedor da prova, em 1990, é em 2002 o mais velho a ganhar. O ano do ténis fechou com o australiano Lleyton Hewitt e a norte-americana Serena Williams no topo dos rankings mundiais.