A palavra crise voltou a ser utilizada no mundo da comunicação social em 2001, ano que assistiu ao triunfo da TVI, ao princípio do fim dos reality-shows e a uma milionária revolução no mercado televisivo
![]() RTP iniciou o ano com episódio bizarro |
A transferência do fundador e principal impulsionador da SIC, Emídio Rangel, para a RTP foi a principal novidade no mercado televisivo, com o novo director-geral da empresa a ser apresentado oficialmente no dia 20 de Setembro, pelo presidente do Conselho de Administração, João Carlos Silva. Apesar do parecer negativo da Alta Autoridade para a Comunicação Social, Rangel assumiu a entrada na RTP como mais um enorme desafio na sua carreira, apontando como objectivo principal a construção de um serviço público com público. A transferência de Rangel para a 5 de Outubro, que foi acompanhada das contratações de José Alberto Carvalho, Alberta Marques Fernandes, José Fragoso, entre outros profissionais da SIC, colocou fim aos seis meses mais dolorosos da sua relação com a estação de Carnaxide, como o próprio definiu. A queda de audiências da SIC, que provocou uma forte redução das receitas da estação, foi o princípio do fim da união entre Rangel e o presidente da empresa, Francisco Pinto Balsemão.
O desgaste de nove anos de funções, o crescimento da TVI (tímido ainda em 2000, forte em 2001), os confrontos com o jornalista Nuno Santos, então director da SIC-Notícias, e com o produtor Ediberto Lima, ambos acusados de traição por Rangel, foram as gotas de água para a saída do velho leão. Este foi o pretexto para o que Pinto Balsemão chamou a refundação da SIC, assente no respeito pelo público e na procura da qualidade.
Em Outubro, na SIC, 54 trabalhadores rescindiram contratos e o ano termina com um convite generalizado da administração aos seus funcionários para a negociação de acordos de rescisão.
O grupo Impresa foi um dos mais fustigados pela recessão, tendo encerrado este ano as revistas Mundo Vip e Nova, transformando em suplementos as revistas Você SA e Exame Digital e desinvestindo no Expresso On-line. Ainda na imprensa, O Independente dispensou 12 funcionários e suspendeu a revista Dependente, enquanto no reino dos diários a administração do Público convidou uma dezena e meia de jornalistas a rescindir.
Os projectos de jornalismo electrónico conheceram igualmente um duro revés em 2001 e, além do caso do Expresso On-line, os internautas assistiram ainda ao encerramentos dos sites Easynet, A Janela e Directo e ao redimensionamento de projectos como o Netparque, Diário Digital e Agência Financeira. O ambiente de recessão não impediu contudo o sucesso da SIC Notícias, lançada a 8 de Janeiro, que se transformou rapidamente na mais vista das televisões temáticas da TV Cabo, apesar da sucessão de directores.
Um ano depois da febre dos reality-shows em Portugal, o ambiente arrefeceu em redor das novelas da vida real. O histórico Big Brother, que ajudou a TVI a destronar a SIC, já não entra nos tops de audiências, mas o ano de 2001 foi pródigo em emoções. Ao BB, a SIC respondeu com os fracassados Confiança Cega, Acorrentados e O Bar da TV, que nunca ganharam audiências. Foi, porém, este último que incendiou o país, quando a 15 de Maio, a SIC exibiu em directo uma chorosa discussão familiar entre uma concorrente e os pais, que a queriam levar para casa, por entenderem que a participação da filha violava a sua educação católica e cívica. A transmissão do pequeno drama familiar e, dias depois, de uma cena de sexo entre outra concorrente e o namorado (estranho ao concurso) levaram à demissão do produtor Ediberto Lima, e consequente afastamento da SIC, e ainda à discussão em redor dos limites éticos da programação televisiva.
A reflexão, promovida pela a Alta Autoridade para a Comunicação Social, culminou com a assinatura a 18 de Agosto de um acordo de auto-regulação da programação pelos três canais televisivos.
O poder da comunicação e, em especial, da televisão ficou bem presente na moda dos barricados que se viveu no primeiro trimestre do ano. A forma de protesto foi inaugurada em Janeiro por Manuel Subtil, à porta da RTP, e estendeu-se à Costa da Caparica e a um hipermercado em Lisboa, sempre com cobertura televisiva. A repetição exaustiva da estratégia, utilizando o poder da televisão para a resolução de problemas pessoais, levou alguns órgãos de comunicação a assinar uma declaração de compromisso para colocar fim ao tratamento noticioso desta forma de protestos.