MÉDIO ORIENTE
Ano “horribilis” do processo de paz

Oito anos depois dos acordos de Oslo, o processo de paz israelo-palestiniano atravessa a sua pior crise e já poucas são as vozes que falam de paz, enquanto muitas proclamam a guerra


Israelitas e palestinianos cada vez mais longe da paz

O ano de 2001 fica marcado como um dos mais violentos e dramáticos no Médio Oriente, com mais de 1.100 mortos e milhares de feridos, na sua maioria palestinianos.

Os atentados terroristas de 11 de Setembro contra os Estados Unidos vieram realçar a necessidade urgente de resolver o conflito entre israelitas e palestinianos, que dura há mais de meio século, desde a criação do Estado de Israel em 1948.

A necessidade de assegurar o apoio dos países árabes à luta contra o terrorismo, obrigou o presidente norte-americano, George W. Bush, a mudar a sua anterior posição de um maior distanciamento em relação a este problema, contrariamente à do seu antecessor Bill Clinton, que se envolveu directamente nas negociações de paz, embora sem grande êxito.

O processo de paz, iniciado com a assinatura, em 1993, dos acordos de Oslo (Noruega), está “congelado” desde Janeiro na sequência da segunda “Intifada” (sublevação) palestiniana, que começou em Setembro de 2000, e da saída de Bill Clinton da Casa Branca. Todas as missões de paz fracassaram desde então e o ano termina com “uma guerra declarada” contra o povo palestiniano, segundo Yasser Arafat, e uma “onda de terror” contra os israelitas, de acordo com as autoridades judaicas.

A gota de água para os israelitas foi a recente onda de atentados suicidas em Israel perpetrados pelas organizações extremistas palestinianas Hamas e Jihad Islâmica, que em duas semanas mataram cerca de 40 israelitas e feriram perto de 250. Na sequência destes atentados, o primeiro-ministro israelita, Ariel Sharon, lançou a mais vasta ofensiva militar dos últimos 15 meses contra os territórios palestinianos, tendo como alvos, nomeadamente, as instituições e instalações militares da Autoridade Palestiniana, de Yasser Arafat, o aeroporto de Gaza e as estações de rádio e de televisão palestinianas, acusadas de incitar à violência.

Os próprios helicópteros de Arafat - três no total - foram destruídos, privando o dirigente palestiniano, que se encontrava na altura em Ramallah, na Cisjordânia, de se deslocar para fora ou entre os territórios palestinianos, a não ser que queira submeter-se à humilhação das demoradas fiscalizações nas passagens terrestres. O próprio presidente palestiniano chegou, aparentemente, a constar da lista de alvos, mas por pressão de Washington, o exército israelita apenas disparou “algum fogo de artifício” contra objectivos a cerca de 100 metros de onde se encontrava Arafat, em Ramallah.

Além da ofensiva militar, Ariel Sharon cortou todos os contactos com Yasser Arafat e declarou-o “irrelevante”. Sharon insiste na legitimidade de deter os atentados terroristas contra o povo israelita, tal com os Estados Unidos estão a fazer no Afeganistão, destruindo o grupo terrorista do Al-Qaida, de Usama bin Laden, suspeito de estar por detrás dos atentados contra o World Trade Center, em Nova Iorque, e o Pentágono, em Washington.

Na sequência destes acontecimentos, o presidente Bush chamou os seus enviados e espera agora que a violência abrande para que possa reatar a mediação de paz. Pressionado pelos Estados Unidos e União Europeia para pôr fim às actividades do Hamas e da Jihad Islâmica, que nos últimos 15 meses já perpetraram mais de 30 ataques suicidas, Yasser Arafat aproveitou a festa do fim do Ramadão, a 16 de Dezembro, para pedir o cessar da violência, incluindo os atentados suicidas e todas as outras “actividade terroristas” contra Israel.

Numa mensagem televisiva ao povo palestiniano, Arafat apelou ao fim de “todas as operações armadas” contra Israel e ao regresso “imediato” à mesa das negociações de paz com o Estado judaico. O discurso foi acolhido com agrado pela comunidade internacional e cepticismo por parte de Israel, que pediu “acções concretas em vez de palavras”.

Yasser Arafat, que durante décadas foi considerado pelo povo palestiniano como o líder incontestado e o símbolo da luta pela criação de um Estado palestiniano, parece estar cada vez mais isolado, tanto a nível externo como interno.

A subida ao poder do velho “falcão” israelita Ariel Sharon, em Fevereiro passado, veio deitar por terra os progressos até aí alcançados no processo de paz. A Intifada, que começou em Setembro de 2000 com a ida de Sharon, então ainda líder da oposição, à Esplanada das Mesquitas em Jerusalém - e que foi considerado “uma provocação” pelos palestinianos - subiu em violência e o processo de paz regressou à estaca zero.