AFEGANISTÃO
Esperança e incerteza... entre ruínas

Quando, a 13 de Novembro, a Aliança do Norte - a mais bem organizada e mediática oposição armada ao regime fundamentalista talibã - tomou Cabul, o Afeganistão entrou num novo ciclo. De estabilidade e de paz? De esperanças e incertezas, sobretudo


Atentados de 11 de Setembro ditaram sofrimento ao povo afegão

Em debandada o poder totalitário e terrorista dos talibãs, a 13 de Novembro, ficou a conhecer-se o vencedor de uma guerra civil que se arrastava há anos, inconsequente, sem que visivelmente avançassem no terreno as forças coligadas a norte ou as desorganizadas milícias tribais dispersas um pouco por todo o território.

Inquestionavelmente, Cabul não teria caído tão cedo sem a campanha de bombardeamentos que, a 7 de Outubro, menos de um mês depois dos atentados terroristas de 11 de Setembro em Nova Iorque e Washington, e em resposta a eles, os aviões norte-americanos encetaram, a uma cadência e com uma intensidade devastadoras, contra as estruturas visíveis do poder talibã e as praticamente invisíveis da Al-Qaida, a rede terrorista do “inimigo número um”, Usama bin Laden.

A vitória, que a queda de Cabul simbolizou, era tida como segura, como inevitável, desde a tomada de Mazar-i-sharif, a norte. Mas só a queda de Kandahar, quase um mês depois, a tornou irreversível. Kandahar fora até então o bastião do poder talibã, a central de comando do chefe supremo do regime, o “mullah” Omar.

Encerrada a central, sem canais para difundir a sua mensagem o “mullah”, em fuga e sob assédio de atacantes aéreos e terrestres das forças do novo regime, que resta aos talibãs?

A rendição, a fuga - ou, resistindo sempre, a morte. Omar e, presumivelmente, a julgar pelas últimas notícias, também bin Laden, optaram pela fuga. Ao primeiro, homem sem rosto, alguém jurou tê-lo visto fugir numa motorizada antes da rendição de Kandahar. Do segundo, o mais mediático terrorista da actualidade, nada se sabe.

Washington procura-o, “vivo ou morto”, para o julgar pelos atentados de que, desde logo, o apontou como “principal suspeito”. Todos os meios foram mobilizados para essa busca - e parece ser determinação dos norte-americanos não a dar por finda enquanto o chefe da Al-Qaida não for, morto ou vivo, encontrado. Entende-se a persistência: ao fim e ao cabo, volvidos cinco anos de terror absoluto de um regime que nada respeitou, cinco anos de um programado massacre de uma população a que todos os direitos foram recusados, cinco anos de meras condenações inconsequentes da comunidade internacional, bin Laden foi a primeira razão de ser da intervenção norte-americana.

Na origem de tudo, aviões lançados contra as “torres gémeas” do World Trade Center, e o Pentágono por comandos suicidas, nos até então impensáveis cenários de terror de Nova Iorque e Washington. Está ainda por quantificar definitivamente o balanço de mortos e feridos. Milhares, em qualquer dos casos.

Quando, quase imediatamente após os atentados, começou a “invadir” os canais informativos, o nome de bin Laden não surpreendeu os norte-americanos em choque. Já o tinham ouvido, já conheciam mesmo o rosto do “principal suspeito”, graças à ampla difusão do seu retrato pelos “media”, na sequência dos atentados contra o World Trade Center em 1993 e contra as embaixadas norte-americanas na Tanzânia e no Quénia em 1998.

À suspeita da implicação de bin Laden, Washington não tardou a juntar “provas de culpa”. Não as tornou públicas, porém - o que Cabul, quase de imediato pressionado a entregar o milionário terrorista, a que dava asilo, aproveitou para rejeitar a intimação norte-americana. Furtando-se, como nunca antes, às pressões dos “media”, a administração norte-americana, ao mesmo tempo que mobilizava todos os seus recursos para o socorro às vítimas dos atentados, preparava-se para agir. E a ninguém terá ocorrido, então, nomear como provável outro alvo que não o Afeganistão.

O apoio solidário da NATO não tardou a ser expresso. Reconheceu-se aos Estados Unidos toda a legitimidade para contra- atacar, invocando-se, em sua justificação, o facto de terem sofrido “um ataque vindo do exterior”. A não poucos analistas soou estranho, este argumento. Questionou-se: que estado, que organização, e a soldo de quem, atacara, de fora, as “torres gémeas” e o Pentágono, quando, sem margem para dúvidas, os aviões tinham partido de aeroportos norte-americanos, levando a bordo atacantes comprova­damente residentes em território norte-americano? Aos apoiantes incondicionais de uma reacção norte- americana não se colocavam dúvidas deste tipo - na sua óptica, meras “questões de pormenor” que a magnitude do problema esbatia por completo. E tinha - tem - um nome, o problema: terrorismo. Tratava-se de “fazer a guerra” a este “monstro” dos tempos modernos. Tratava-se de, com todos os meios ao alcance da máquina de guerra norte-americana, arrancar “o mal” pela raiz.

No Afeganistão, para começar. As primeiras bombas dos aviões norte-americanos foram lançadas a 7 de Outubro. No mesmo dia, a mesma aviação lançou ajuda humanitária - simultaneidade que deu tema à ironia amarga de “carto­onistas” e cronistas em todo o mundo. Só no dia seguinte o Conselho de segurança da ONU tomou, formalmente, posição: por unanimidade, apoiou os ataques. Toda a legitimidade, enfim, para a intervenção norte-americana.

Dois meses volvidos, o Afeganistão mostra as suas “feridas”: cidades arrasadas, saneamento básico inexistente, milhares de refugiados, um número indeter­minado de mortos - pelas bombas e pelas execuções sumárias - fome, frio, doença. Neste período, um novo “terror” marcou - marca ainda - a vida norte-americana: o “bacilo do carbúnculo”, que terroristas sem nome e sem rosto fazem circular, principalmente, “por correio”. Suspeitou-se, num primeiro momento, que este fosse o seguimento (lógico) da “ofensiva terrorista” contra os Estados Unidos. Não são tantas as certezas, hoje. Os mais recentes dados começaram a esboçar o perfil de um “inimigo interno”.

A guerra prossegue, entretanto. Irrefutavelmente, porém, qualquer que seja o resultado do cerco final a bin Laden e a Omar, mais ou menos tenazes que provem ser os resistentes finais do regime, mais ou menos litigiosos que se afigurem os próximos tempos, os dados para a construção de um Afeganistão sem talibãs - e sem bin Laden, Omar e outros - estão lançados.

Completamente outra questão é que a comunidade internacional não proclame a uma só voz a firme convicção de que os novos senhores do país vão construir um Afeganistão diferente do que durante cinco anos significou primitivismo, barbárie, terror absoluto.

Há razões, no passado recente, para que o não faça.