Os dias da RAEM


José Rocha Dinis

Às 24 horas de hoje celebra-se o primeiro aniversário da criação da Região Administrativa Especial de Macau, um momento que, de uma ou outra forma, tocou a vida de todos os residentes de Macau, pelo que ninguém lhe ficou indiferente.

A comunidade portuguesa, que é a razão da existência deste projecto jornalístico que se chama JORNAL TRIBUNA DE MACAU também viveu o momento com especial emoção.

Muitos o consideraram como o encerrar do ciclo do Império, outros o pretenderam apenas como o início de um novo ciclo, decorrente da Declaração Conjunta assinada pela República Popular da China e República Portuguesa e a posterior Lei Básica da Região Administrativa Especial de Macau aprovada pelas autoridades do Governo Central de Pequim.

Mesmo com dois anos e meio de Região Administrativa Especial de Hong Kong como modelo, o sentimento mais generalizado foi o de “esperar para ver”, sabedores quão enorme pode ser a diferente entre a teoria e a prática. Sendo certo que muita coisa mudou, como decorria aliás da transferência de soberania, não se pode dizer que, no essencial, a comunidade portuguesa possa apresentar grandes razões de queixa. Os “avanços e recuos” deste processo, que nem sempre foi linear, nem isento de dificuldades, que ninguém pretende esconder, mas que muitas vezes foram exageradas pela tradicional “autofagia” de alguns portugueses, surgem ao longo desta edição especial do JTM, que começa por uma longa apresentação de factos e continua depois com a opinião de personalidades e cidadãos comuns.

 É um pouco da história deste primeiro ano da RAEM, o que perspassa pelas próximas páginas. Sendo uma pesquisa histórico-jornalística não estará isenta de lacunas ou erros, mas é certamente uma base de trabalho para a compreensão deste período.

Da evolução dos acontecimentos, declarações e mensagens públicas é perceptível que passadas as euforias, nem todas legítimas, os pragmáticos dirigentes da RAEM parecem ter percebido que o seu progresso e desenvolvimento passam pelo aprofundar do modelo existente e não por rupturas que se sabe onde começam, mas nunca se consegue prever onde acabam.

Assim, um ano depois, sente-se que Macau tende, cada vez mais, a pôr os pés bem assentes no chão, e a construir o futuro nas virtualidades de um Estado de Direito que assegura a existência de uma sociedade moderna e aberta ao mundo, em que cabem todos os que vierem e estiverem por bem.

Este foi apenas o primeiro ano da vida da RAEM mas muitos outros se lhe seguirão. Não havendo hoje a esperar facilidades em parte nenhuma do mundo, só podemos desejar que a comunidade portuguesa seja capaz de aprofundar aquilo que a une, em detrimento do que a separa e continue a contribuir para que a sua presença na RAEM continue a ser desejada e necessária.

*Publicado no JORNAL TRIBUNA DE MACAU, 19/12/2000