MIGUEL SENNA FERNANDES:

“FJA deixou as suas marcas indeléveis”

Pela negativa, a questão da Fundação Jorges Álvares - Não que a sua criação seja uma boa ou má medida, nem está em causa a honestidade das pessoas envolvidas. O empolamento da questão na imprensa quer local, quer de Portugal, deixou as suas marcas indeléveis no prestígio da presença portuguesa em Macau. A comunidade portuguesa nada ganhou com a questão, antes pelo contrário sofreu com ela. O “timing” do arranque da Fundação foi infeliz. E a notícia não ajudou coisa alguma, antes atiçou velhos ódios. Muita tinta correu, contudo, a Fundação continua a funcionar e hoje já nem é notícia. Não interessa a ninguém. Mas, no seio da comunidade, abriu-se uma ferida enorme que só com o tempo sarará. Um custo enorme em troco de nada. O que  me leva a crer que muitos dos nossos problemas não provêm desta ou daquela administração, mas sim de nós: somos muito mauzinhos connosco próprios....!!!

Uma outra nota  negativa prende-se com a falta de sensibilidade para  as coisas de Macau por parte de Portugal. Se antes da transferência de poderes, esta insensibilidade já se manifestava - por vezes escandalosamente -, agora, torna-se imperdoável, após os longos discursos de afirmação do chamado desígnio nacional, conceito este que deixou pura e simplesmente de ser mencionado, depois do handover. Um dos exemplos deste distanciamento, e a consequente falta de tacto, foi o que aconteceu aos médicos em licença especial. Evidentemente que pode ter sido mais uma gaffe da República. Mas, quando esta pretende para Macau a manutenção de uma cultura de matriz portuguesa, era bom que não começasse por afugentar as pessoas, ou então que não tivessem sido tão efusivos os discursos de encorajamento, a que tão fastidiosamente nos habituamos no passado.

Ainda outra nota negativa, é deixar de ver os amigos que sempre estiveram cá, sobretudo, quando os mesmos há tempos atrás juravam a pés juntos que não sairiam. Certas coisas mudaram em Macau, e algumas pessoas não se habituaram à ideia...

Embora seja muito cedo para emitir uma opinião sobre a RAEM, posso dizer que o meu estilo de vida pouco mudou. O que é uma nota positiva. Continuo a poder fazer o que sempre fiz.

Outra nota positiva: parece-me que o Chefe do Executivo, sem perder a sua postura de equidistância em relação a todos, tem sido muito ponderado em todas as questões respeitantes à comunidade portuguesa de Macau. Tem revelado um cuidado no tratamento destas matérias.

No encontro preliminar dos dirigentes das Casas de Macau, em Novembro passado, foram feitas declarações públicas muito importantes em prol da comunidade portuguesa local: que a RAEM apoia o encontro das comunidades em toda a sua extensão. Confesso  que não estava à espera disso, e por isso, dou a pontuação máxima ao Chefe do Executivo.

Em Macau, há uma nova estratégia de turismo que lentamente se torna visível; há um nítido cuidado no planeamento de atracção turística. E a estratégia de vincar a ideia de Macau como ponte entre culturas, sobretudo depois do handover, é de aplaudir.

*Publicado no JORNAL TRIBUNA DE MACAU, 19/12/2000