NA BARRAGEM DE CAHORA BASSA E TODO O VALE DO ZAMBEZE
Stanley Ho lidera aposta chinesa

Um conjunto de empresários chineses encabeçado pelo magnata do jogo luso-chinês, Stanley Ho, está interessado não só em adquirir uma posição na barragem de Cahora Bassa, mas a aposta passa por todo o vale do Zambeze em Moçambique

Tomás Ribeiro
Helena Santareno

Esta intenção já foi manifestada ao Governo português - mais concretamente ao primeiro-ministro, José Sócrates, e aos ministros das Finanças, Campos e Cunha, e dos Negócios Estrangeiros, Freitas do Amaral - por Stanley Ho, durante a sua mais recente visita a Portugal. Mas também ao Governo moçambicano posteriormente, por representantes das empresas chinesas, que recentemente se deslocaram àquele país africano, acompanhados de Almeida Santos, ex-presidente da Assembleia da República, com o propósito de manifestar não só as suas intenções relativamente a Cahora Bassa, mas também o seu interesse em cooperar no desenvolvimento e aproveitamento das riquezas de todo o vale do Zambeze, revelaram ao DN fontes ligadas ao processo.

As empresas querem investir naquela região, quer na área da agricultura quer na exploração do carvão para a produção de energia em centrais térmicas, para além, claro, da produção hidroeléctrica.

Mas a concretização desta intenção dos empresários chineses depende, obviamente, da conclusão de um acordo entre os Estados português e moçambicano relativamente àquela barragem, que é só a segunda maior de toda a África, sublinharam as mesmas fontes.

“Os chineses já perceberam muito bem quanta riqueza tem aquele vale, com três milhões de hectares irrigados para a produção agrícola, com carvão para produzir electricidade e com o potencial hídrico de Cahora Bassa”, explica um dos elementos envolvidos nas negociações, adiantando que “Cahora Bassa pode aumentar a produção com a instalação de algumas máquinas e a construção de uma barragem a jusante”.

As negociações entre Portugal e Moçambique para a resolução do problema da dívida de Cahora Bassa foram abertas na semana passada, com a primeira reunião entre os ministros da Economia dos dois países. Do acordo a que os dois países venham a chegar pode resultar a alienção de uma parte da posição portuguesa no projecto, e é precisamente nesta parcela que o grupo de empresas chinesas, que inclui algumas do empresário Stanley Ho, estará interessado em comprar.

Negócios em África
passarão pela Geocapital

Constituída com o objectivo de investir em projectos ligados à agro-indústria, recursos naturais e infra-estruturas nos países de expressão portuguesa, a Geocapital centrará a sua acção, numa primeira fase, em Cabo Verde, Angola e Moçambique. Com um capital social de 10,2 milhões de euros (cem milhões de dólares de Hong Kong), esta sociedade financeira tem como accionistas Stanley Ho (directamente e através da Shun Tak, STDM e Banco Seng Heng), com o cargo de presidente do conselho de administração, de fundos de investimento chineses e ainda de Ferro Ribeiro, que assegura a presidência executiva da sociedade. Almeida Santos é o presidente da assembleia geral, que conta ainda com três administradores, um dos quais Silveira Botelho, com ligações à Fundação Champalimaud. Os investimentos da Geocapital serão desenvolvidos directamente ou em consórcio com empresas chinesas (estatais ou privadas, consoante os projectos).

CONTRAPARTIDAS. Estas intenções de investimento dos chineses surgem, tais como outras ao longo destes últimos dois anos, na sequência do protocolo assinado em Macau, em Outubro de 2003, por representantes dos governos chinês, português e de todos os países do espaço lusófono (ver texto abaixo).

A China é, neste momento, um exportador de capital e o crescimento exponencial da economia chinesa tem conduzido o país a um défice de energia. Assim , os chineses estão dispostos a investir em locais onde possam garantir algumas reservas energéticas. África surge, assim, como o destino preferido pelos chineses. E, neste contexto, Angola e Moçambique assumem particular relevo.

Portugal, sendo um país que está próximo por razões históricas da China e da África lusófona, poderá assumir um papel determinante na ligação entre os investidores e servir de ponte entre os dois mundos, explicaram ao DN as mesmas fontes. Foi, aliás, essa a ideia que saiu do encontro de Macau e que resultou no referido protocolo.

© JTM/DN

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