A culinária de diferentes portos

Um toque de Moçambique, outro de Malaca e da Índia, aos quais ainda se juntam os ingredientes da China às receitas de Portugal: assim nasce a culinária macaense, uma gastronomia centenária fortemente marcada pela confluência de sabores

“Dizer que a culinária macaense é um parente pobre da gastronomia chinesa é errado, tal como também o é dizer que é muito parecida à comida portuguesa, porque é muito mais do que isso”. Quem o afirma é Hugo Bandeira, membro fundador da “Confraria da Gastronomia Macaense”, argumentando que a comida macaense é uma mistura dos vários ingredientes que os portugueses foram recolhendo na rota de Portugal até Macau. “A culinária macaense até nos pode fazer pensar que já provamos algo parecido em Malaca ou qualquer coisa semelhante na Índia ou Moçambique, porque eram exactamente os portos por onde passavam os portugueses, recolhendo ingredientes que acabavam por ser misturados em Macau”, justificou o também o professor do Instituto de Formação Turística.

Uma opinião partilhada pelo presidente da Associação Promotora da Instrução dos Macaenses (APIM), José Manuel Rodrigues, que realça que a gastronomia macaense “é, por natureza, uma grande mistura de diversas culinárias existentes em vários locais do mundo”. Mas o mesmo responsável ressalva que, mesmo com toda esta fusão de culinárias, a gastronomia macaense “tem o seu sabor próprio e genuíno”. “Ao longo dos séculos adaptamos culinárias de diversas origens, mas mantivemos a originalidade da nossa cozinha”, frisou o dirigente.

O projecto, contudo, foca outras áreas além da culinária em si, tais como a investigação e a formação, tudo para “dar a conhecer mais da cozinha tradicional macaense, uma gastronomia de fusão”, ressalvou Hugo Bandeira. Para tal, a confraria irá proceder à recolha de receitas de várias famílias de Macau, algo que servirá também para aprender um pouco mais sobre a gastronomia local. “Temos que chegar a um consenso sobre o que é a comida macaense, porque é um conceito complicado que com o passar do tempo dilui-se cada vez mais”, alertou Hugo Bandeira, que defende a modernização da culinária, “mas sem afectar a base dos ingredientes e o sabor”.

De acordo com Hugo Bandeira, algumas das acções passarão também por efectuar visitas aos ditos restaurantes macaenses, uma ou duas vezes por mês, “para ver se é realmente comida macaense ou se a culinária já foi desvirtuada”. Neste âmbito, irão ser premiados os restaurantes que “realmente fazem comida macaense”, enquanto que os restantes serão “diplomaticamente aconselhados a mudarem”, concluiu o sócio fundador.