A continuação da valorização do renminbi é uma certeza nos mercados cambiais para 2007. Lateralmente, a medida pode trazer boas notícias para o sector do turismo de Macau, cujo peso dos visitantes provenientes da China Continental supera os 50 por cento
O ano que começou esta semana deve ficar marcado por novas valorizações do renminbi. Tanto que o mercado cambial espera que a moeda chinesa ultrapasse o valor do dólar de Hong Kong pela primeira vez em mais de 15 anos. Uma realidade que pode tornar Macau ainda mais atraente para os visitantes provenientes do Continente, que, devido à valorização da moeda chinesa face à pataca, vêem o seu poder de compra aumentar automaticamente cada vez que passam a fronteira em direcção à RAEM.
“Quando uma moeda forte se valoriza, sai beneficiada em relação a divisas mais fracas”, explica ao JTM o presidente do conselho de administração do Banco Espírito Santo do Oriente, José Morgado. “Isso é um factor positivo para o acréscimo do turismo” proveniente da China Continental, acrescenta.
As estimativas do Centro de Informação Estatal, um organismo governamental da China Continental, apontam para uma valorização do renminbi entre os três a quatro por cento face ao dólar norte-americano em 2007. No entanto, analistas estrangeiros estimam um aumento que pode chegar aos dez por cento. O que, estando a pataca indexada ao dólar de Hong Kong, o qual, por sua vez, está ligado à moeda dos Estados Unidos, significa que ambas as divisas das RAEs vão sofrer sucessivas desvalorizações face ao renminbi ao longo do ano que agora começou.
No caso da RAEHK, o mercado cambista está à espera do momento em que, pela primeira vez, o renminbi ultrapasse o dólar de Hong Kong. Algo que, apesar de ainda não se ter verificado nos mercados inter-bancários, já é uma realidade: ontem, em Macau, os cambistas situados na área do Largo do Senado pediam 1,018 dólares de Hong Kong por cada unidade da moeda chinesa. Segundo o diário oficial chinês “China Daily”, nas casas de câmbio da antiga colónia britânica e na vizinha Shenzhen já se verifica situação idêntica. Isto apesar de, em termos inter-bancários, a taxa de conversão ontem se situar nos 0,9979 dólares de Hong Kong por cada renminbi.
Segundo José Morgado, “a manter-se a tendência de subida [do renminbi], o turista chinês fica com maior capacidade para fazer face a um bem mais barato”, como deverá acontecer em Macau. No entanto, o responsável frisa que o crescimento do turismo na RAEM não deve acontecer apenas devido a esse factor. O bancário salienta a importância de outras medidas, como o alargamento da política dos vistos individuais a mais cidades do Continente.
O presidente do conselho de administração do Banco Espírito Santo do Oriente realça, porém, que as vantagens que a RAEM oferece aos visitantes da China Continental devido à valorização do renminbi também se vão verificar em Hong Kong. No entanto, o responsável acredita que “Macau é capaz de ser mais apetecível se tivermos em conta a propagação do jogo”. Até porque nos casinos do território, a moeda utilizada é o dólar de Hong Kong e não a pataca.
EFEITOS SECUNDÁRIOS. Na opinião do chefe-cambista do BNU, Nuno Ribeiro, “o renminbi poderá estar mais forte do que o dólar de Hong Kong até ao final do ano”. O especialista, que espera uma “valorização lenta, mas gradual ao longo de todo o ano da moeda chinesa”, arrisca mais: “Não me admiraria muito se a ultrapassagem ocorresse ainda na primeira metade do ano, logo no primeiro quartel”.
Nuno Ribeiro também reconhece as vantagens que a valorização da moeda chinesa face à pataca pode trazer para o turismo do território. “É um efeito que poderá ser benévolo: os bens que se vendem em Macau tornam-se comparativamente mais baratos, o que traz benefícios para os retalhistas e operadores do sector”, afirma ao JTM.
No entanto, o chefe-cambista do BNU frisa que a subida do valor do renminbi não se traduz só em pontos positivos. Para os residentes, pode implicar uma “inflação importada”, uma situação já noticiada pelo JTM em Novembro. Isto significa que, “visto que a maioria dos bens de consumo e até a energia que servem para suprir as necessidades básicas de Macau são importadas da China Continental”, o seu preço deve aumentar face à perda de valor da pataca relativamente ao renminbi, frisa Nuno Ribeiro. “Os comerciantes podem ter que reflectir nos preços esses aumentos”, realça o especialista.
TURISTAS E GASTOS CRESCEM. O número de visitantes chegados a Macau provenientes da China Continental tem vindo a aumentar constantemente desde 1997. Entre o início de Janeiro e até ao final de Novembro do ano passado, tinham já sido registadas 10,843 milhões de entradas na RAEM de visitantes com residência no Continente. O valor representa 55 por cento do total de turistas que visitaram o território nesse período.
A mesma tendência positiva tem-se verificado no que toca à despesa “per capita” dos visitantes do Continente, em crescendo desde 2000. Segundo os dados do Serviço de Estatística e Censos, nos três primeiros trimestres de 2006 registaram-se sempre subidas em relação ao período homólogo de 2005 no que se refere às despesas “per capita” dos visitantes vindos da China Continental.
Em termos médios, entre Janeiro e o final de Setembro do ano passado, cada turista do Continente gastou em Macau o equivalente a 2955 patacas. No entanto, em termos finais, a despesa “per capita” deve ficar próxima das 3100 patacas, visto que, tradicionalmente, o último trimestre de cada ano é aquele em que os visitantes provindos da China Continental mais dinheiro gastam em Macau.