EM JEITO DE BALANÇO
Cooperação com o Vietname tem “pernas para andar”
desde que Hanói “ganhe” um novo ritmo de abertura

A visita oficial de Edmund Ho ao Vietname traduziu-se numa “carta de intenções” de cooperação em “seis áreas”. Hanói tem muito a ganhar com a sua materialização pois vê abrirem-se-lhe novas portas enquanto a RAEM vê reforçar o papel de “plataforma” e a possibilidade dos seus empresários acederem mais facilmente ao “mercado comum” da ASEAN. Tudo isto apenas se Hanói aumentar o ritmo das suas reformas, até agora tímidas, apesar dos progressos feitos...

Desde sempre, Vietname e China tiveram relações conturbadas.

Há milhares de anos, a poderosa civilização chinesa dominou os povos da Indochina, e se hoje os traços dessa presença, em especial na orla marítima, são “vendáveis” em termos turísticos, os orgulhosos vietnamitas deixam bem distinto que são étnica e culturalmente diferentes dos seus vizinhos.

No passado recente, esta “complicada” relação também foi evidente. A fundação da República Popular da China veio ajudar na “primeira guerra” de independência do Vietname. A verdade, porém é que, se Ho Chio Min era “hóspede” regular de Mao Tse Tung, cujas tropas e dinheiro muito contribuiram para a derrota militar dos franceses, tudo indica que isso tenha acontecido mais por pressão da União Soviética do que por vontade própria de Pequim.

O que Mao desejava, era outra coisa: uma espécie de Tratado de Tordesilhas entre a URSS e a RPC sobre o mundo comunista, ficando os países asiáticos na órbita directa de Pequim. Moscovo nunca deu força à ideia, e Estaline nem sequer reconheceu Mao como igual, como este não reconhecia Ho Chi Min ao mesmo nível.

Aqui e ali, o Kremlin limitou-se a utilizar as forças chinesas na expansão soviética, e a troco de promessas nunca totalmente cumpridas (a criação da força naval chinesa do Pacífico ou o apoio ao desenvolvimento de uma tecnologia nuclear própria, por exemplo), Pequim foi enviando militares e dinheiro para os campos de batalha da Coreia e do Vietname.

Aqui, primeiro contra os franceses e mais tarde, depois da divisão Hanói-Saigão contra a República do Vietname do Sul e os seus aliados norte-americanos.

HANÓI “SEPARA-SE” DE PEQUIM. A morte de Estaline, e em especial a denúncia pública do regime, feita por Krustchev, levam Mao ao último “grito do Ipiranga” (os primeiros tinham sido ainda na Longa Marcha até Yenan, com as discordâncias tácticas com o enviado de Moscovo Li De, o nome chinês do alemão Otto Braun) em relação ao seu vizinho do Norte, o que só se tornou visível à opinião pública ocidental com a aproximação a Washington.

A queda de Saigão, preparada anos antes com as negociações de Paris em que os vietnamitas do sul não foram tidos nem achados, antecipa a ida a Pequim do fragilizado Richard Nixon, e o já muito doente Mao Tse-tung, porém, com a mente bem clara, mostra ter percebido que entre as duas potências, a China tinha mais a temer da vizinha URSS que da longínqua América.

O Vietname reunificado esquece a contribuição chinesa e assume-se totalmente como uma “base” da expansão soviética e anti-chinesa. Invade o Cambodja e começa a guerrilha de atrito na fronteira com a China. Um “incómodo” para o regime de Pequim que é obrigado a responder pela força na fronteira e a desgastar a ocupação militar vietnamita no Cambodja através do apoio aos “kmers rouge” na luta contra a ocupação vietnamita, ao mesmo tempo que mantém em reserva o Príncipe Sianhouk.

É natural que o pragmático Deng Xiao-ping, consolidado o poder em Zongnanhai, tenha achado que tudo isto era tempo e dinheiro perdido, para a sua mais urgente tarefa de promover o desenvolvimento económico do país, mas não tinha outra opção até a situação internacional se alterar.

Muito antes do Muro de Berlim ter caído, porém, já a economia dos países do leste europeu estava de rastos, o que obrigou a URSS a sentar-se “à mesa” do desarmamento com os EUA e o regime de Hanói começou a ficar entregue a si mesmo.

Retirou tropas de Phnom Penh, terminou a guerrilha com a RPC, que por sua vez “deixou cair” os sangrentos “khmers” e quando Gorbachov avançou na “perestroika”, permitiu a lenta abertura das fronteiras com o Vietname, e os consequentes contactos comerciais.

Em termos políticos o desanuviamento começou na deslocação à China do secretário-geral do PC Vietnamita em Dezembro de 2001, logo seguida da visita oficial ao Vietname do Presidente Jiang Zemin em Março de 2002 e as declarações de boas relações entre os dois países receberam grande impulso.

Em termos económicos, porém, Hanói manteve-se agarrado ao “modelo” centralista de desenvolvimento soviético, e embora reconhecendo a necessidade de reformas, até por falta do apoio do seu “patrono”, não seguiu a “perestroika” e a “glassnot” de Gorbachov e Ieltsin, um programa demasiado arrojado para o seu conservadorismo.

Ao mesmo tempo, porém, “desconfiou” dos resultados “colaterais” do modelo de desenvolvimento preconizado por Pequim, com a criação de zonas económicas especiais a funcionar como motor de arranque do resto do país.

Por isso, o norte e centro do Vietname manteve-se num estádio muito atrasado de desenvolvimento, com o Partido a “marcar o ritmo” lento das reformas. Ainda hoje, esse atraso é evidente.

Ho Chi Min City é a excepção, mas sempre o foi ao longo dos tempos, muito por obra e graça do dinamismo da sua população que ultrapassa todas as barreiras, incluindo as que lhe impõem vindas do Norte.

A “REVOLUÇÃO DE MAIO”. Em Maio deste ano, e concluindo um processo que se foi desenvolvendo nos últimos anos, uma nova classe dirigente chegou ao poder em Hanói. O Presidente Nguyen Minh Triet e o Primeiro-Ministro Nguyen Tan Dung, lideram a nova geração de dirigentes que os observadores internacionais consideram como verdadeiros reformistas, embora na sua maior parte tenham sido educados na Rússia.

Nos poucos meses que leva de governo, a nova liderança tem procurado activamente a entrada na Organização Mundial do Comércio (o que os países europeus têm atrasado em virtude do não cumprimento pelo Vietname de legislação internacional sobre liberdade de comércio e direitos dos trabalhadores), e uma maior integração política e económica regional, através da ASEAN e da APEC que vai realizar a sua 13ª Conferência anual em meados de Novembro.

A nível interno, os novos líderes tentam satisfazer as expectativas de uma enorme e relativamente jovem população prometendo um ritmo mais rápido de crescimento económico e reforço de luta contra a corrupção, quase oficalizada no Vietname.

A “formula” é conhecida nesta zona do Globo: o Governo de Hanói deixou o Estado centralista como motor de desenvolvimento e assumiu a estratégia chinesa de promover a riqueza numas regiões e depois colocá-las ao serviço do desenvolvimento das outras. Isto é “um país, vários ritmos de desenvolvimento”.

Existindo Ho Chin Min City, com uma população muito dinâmica e uma tradição de abertura ao exterior, o Vietname teria, dizem todos os observadores, boas condições para já estar mais desenvolvido, mas Hanói só tardiamente compreendeu que o povo vietnamita está orgulhoso da sua reunificação, mas aspira a melhor qualidade de vida, e as doses maciças de ideologia não matam a fome a ninguém...

Por isso, só quando faltou o apoio russo, Hanói se viu obrigado a dar mais liberdade económica à população da ex-Saigão, parte da qual, para ser correcto já a utilizava, aproveitando os pontos cinzentos da legislação.

Mais recentemente, Danang foi escolhida para outro grande projecto especial. As suas cinco zonas industriais e o turismo atrairam investidores de qualidade, e o Banco de Desenvolvimento Asiático apostou também no seu porto como um dos eixos dos corredores que ligarão os vários países da região.

Mesmo nestas regiões, contudo, são notórias as dificuldades, ainda que seja evidente o esforço que tem vindo a ser feito nos últimos anos. Por exemplo, no turismo as condições existentes atraiem um turismo de massas, pouco exigente, o que significa que não deixa muito dinheiro; na parte industrial, os produtos competem com os dos países vizinhos em mercados onde estes já estão bem radicados, embora as unidades utilizem mão de obra intensiva que já é mais barata que no sul da China. De qualquer modo é louvável o esforço que tem sido feito e a mudança de mentalidades que os seus dirigentes revelam.

Tudo isto tem passado ao lado de Hanói, que sofre muito do sindroma de ser “a capital política”, o  local onde prevalece o debate ideológico, mesmo para justificar as decisões que contrariem as linhas mestras do regime comunista.

EDMUND “ABRE PORTAS”. Foi neste contexto, por um lado da história das relações sino-vietnamitas, por outro das necessidades de atender às exigências da população, que a visita de Edmund Ho ganhou importância aos olhos do Governo de Hanói.

Todos os interlocutores de Edmund Ho conheciam bem os números do crescimento económico de Macau e o papel da RAEM como plataforma de trocas comerciais e atracção de investimentos entre o sul da China e os países lusófonos, e acham que a RAEM os pode ajudar a entrar em novos mercados, obter mais investimentos e receber formação em áreas de serviços onde Macau é muito forte, como no turismo receptivo.

O Chefe do Executivo da RAEM, pelo seu lado, também vê esta aproximação com bons olhos, em especial pelo facto do Vietname pertencer à ASEAN, uma espécie de “mercado comum” asiático, em que Macau não está presente, e por juntando o Vietname reforçar o papel da RAEM como “plataforma” entre empresas do oriente e do ocidente.

Além do mais, Edmund Ho é um interlocutor com mais-valias para a nova liderança do Vietname. É um “enviado” da RAEM sob soberania chinesa e naturalmente fala com a “luz verde” do Governo Central, mas sem “as amarras” do peso histórico das divisões políticas sino-vietnamitas pelo que o seu genuíno pragmatismo é mais credível que um enviado de Pequim.

Ao fim  destes dias em que acompanhámos a visita oficial, fica-nos a ideia que, em Danang e Ho Chi Min City a sua linguagem foi muito bem entendida pelos dirigentes vietnamitas, pelo que pode haver expectativas sérias que os acordos de cooperação ali assinados não se limitem a ficar no papel; já em Hanói, será mais difícil, não porque o seu directo interlocutor, o vice-Primeiro Ministro e ministro dos Negócios Estrangeiros, Pam Gia Khiem, não esteja igualmente empenhado no aprofundamento das seis áreas definidas para a cooperação, mas porque a pesada burocracia do Estado vai retardar qualquer processo.

O caso dos alunos vietnamitas que estudam português na Universidade de Hanói pode ser um exemplo característico. Depois da total abertura de Edmund Ho para que eles venham estudar para a Universidade de Macau, o encontro entre os reitores das duas instituições de ensino superior concluiu sem qualquer resultado concreto, que não a insistência do reitor da universidade vietnamita em vir conhecer as condições da Universidade de Macau.

Muito surpreendido terá ficado em ser convidado a vir já no dia 20 de Outubro, dia de aniversário da UM, e não é certo que, a tempo, consiga tratar da burocracia para uma deslocação ao estrangeiro...