Onde as forças da natureza nem os mortos poupam

É uma das apostas turísticas do Vietname com as dezenas de quilómetros de praia de areia branca e fina e locais históricos a visitar. Há uma semana, o tufão Xangsane causou duas dezenas de mortos e destruiu infra-estruturas. E nem o cemitério escapou...

No famoso “Apocalipse Now”, os areais de Danang estão recriados numa das mais famosas cenas, quando, ao som da “marcha das Valquírias” de Richard Wagner, os helicópteros norte-americanos entram pelo mar para bombardear alegadas posições vietcongs ao longo da costa.

Na última semana, os areais, agora “transformados” com hotéis e resorts de boa qualidade, foram varridos por ventos fortes e chuva intensa pelo tufão Xangsane, vindo das Filipinas, e a devastação foi enorme.

Os resorts de cinco estrelas sofreram enormes prejuízos - o próprio Furama tem vários edifícios destelhados e, no interior, foram muito afectados os serviços com  alta tecnologia -, mas o pior foi nas zonas industriais da cidade e no interior da província, onde houve zonas habitacionais submersas e destruição de infra-estruturas básicas.

Ainda ontem, numa volta de mais de 100 quilómetros que fizemos em redor de Danang, acompanhando o Chefe do Executivo de Macau, pudemos constatar que ainda estão em fase de reparação as linhas eléctricas e telefónicas, há muitas casas quase em escombros ou bastante destruídas, muros em ruínas e estradas cortadas devido à “invasão” da areia e pedras. Na zona industrial de Hoa Khanh, a fábrica da Maesun, que deveria ser uma das mais emblemáticas - já que surge na revista oficial de promoção, está completamente destruída.

O momento mais simbólico desta destruição, porém, foi constatado no cemitério que se situa nas dunas, ao lado da auto-estrada que vai para a antiga cidade chinesa de Hôi An. As fortes rajadas, que dizem ter atingido os 150 quilómetros/hora, devem ter “varrido” com força as dunas de areia para deixar algumas urnas de pedra como que a baloiçar em um ou dois ferros e outras bastante danificadas, possivelmente pelo bater de umas nas outras.

Os vietnamitas, porém, estão habituados ao sofrimento, seja provocado pelos homens, seja pelas forças da natureza, e, por isso, anda tudo em grande azáfama para repor a situação antes do Xangsane. Os hotéis de investimento externo “levantam-se” a pouco e pouco, “com grande vontade e enorme capacidade de trabalho dos seus funcionários” como disse ao JTM o director-geral do Furama, Sean Halliday, sem negar que “em tudo o que tenha a ver com áreas extra-hotel é mais moroso, porque os recursos humanos são escassos para atender a todos os locais afectados”.

As estruturas dependentes do governo da cidade ou da província, também estão a recompor-se. O Governo Central atribui a maior importância a Danang, a cidade-centro de um dos cinco “Corredores Económicos Leste-Oeste”, projectos patrocinados pelo Banco de Desenvolvimento da Ásia para ligar os países da sub-região do Grande Delta do Mekong e que está na lista de prioridades de Hanói. Segundo apurámos, da capital e de Ho Chi Min City foram imediatamente deslocados fundos financeiros e técnicos para ajudar a cidade a regressar ao seu “brilho” anterior, podendo dizer-se que só na orla marítima ainda são visíveis os estragos.

As unidades industriais também não deverão ter problemas, vendo-se trabalhadores a refazerem em especial os telhados, zona mais atingida. A excepção é a fábrica da Maesun, onde não se vê vivalma e está encerrada. 

O mais demorado ainda será resolver os problemas dos particulares, a quem a prometida ajuda estatal deverá tardar a chegar, sendo imaginável que a aplicação das contribuições internacionais também não encontre neles a sua primeira prioridade. Muitos dos habitantes das casas destruídas vão ter dificuldade em erguer de novo as suas “quatro paredes”, a menos que a destruição se tenha verificado numa qualquer loja, que aí até os vizinhos ajudam.

TRADIÇÃO COMERCIAL. As autoridades vietnamitas não fazem mais que tentar uma “fórmula” historicamente provada. Nos séculos XVI e XVII, na realidade, a cidade de Hôi An, com porto próprio para o calado dos barcos da altura, era um dos mais importantes centros do comércio internacional do sudoeste asiático, um ponto de encontro entre comerciantes locais com chineses (em especial de Fujian), japoneses, indianos e mesmo holandeses (dos portugueses não há vestígios embora quem conheça a história dos nossos navegantes não fique surpreendido de os encontrar, mais cedo ou mais tarde).

Todo o conjunto da antiga cidade está, desde 1999, inscrita pela Unesco na Lista do Património Histórico da Humanidade e revela a riqueza da região nesses dois séculos na sumptuosidade das suas residências, templos e casas “comunais”, que as autoridades vietnamitas preservam, sendo o maior atractivo turístico da região, em especial para os europeus.

Os arredores, contudo, são algo deprimentes. A população, industriosa a abrir qualquer “porta” que dê dinheiro, recebe os turistas de forma simpática e hospitaleira, mas não é necessário estar muito tempo para perceber as dificuldades com que vivem no dia a dia. A maior parte das casas são rudimentares e vivem, mesmo ao lado das estradas, junto de zonas pantanosas com condições de vida bastante más.

E se mostram estar resignados, é justo que defendam que não necessitavam que as forças da natureza viessem, de vez em quando, agravar-lhes a situação...

J.R.D.