ENCONTRO NO IIM JUNTOU POETAS CHINESES E PORTUGUESES
A universalidade da poesia
A “Poesia e a cultura portuguesa” e o “panorama da realidade actual da poesia chinesa” foram temas centrais de um animado debate que ontem juntou dezenas de poetas portugueses e chineses no auditório do IIM
O poeta Pedro Tamen abriu a sessão contando que quando visitou a gruta de Camões ficou “surpreendido e emocionado com o facto de as crianças de Macau prestarem homenagem a Camões” mesmo não conhecendo a sua obra. Esta suposta contradição é apenas aparente porque, de acordo com Pedro Tamen, “a grandeza da poesia reside no facto de esta partir do particularismo das línguas para atingir a universalidade do Humano”.
Son Renfa continuou a sessão incidindo em factos estatísticos que caracterizam a situação editorial da poesia chinesa. Estimando que existam actualmente 2100 poetas na China, o poeta reconheceu contudo que muitos dos dados oficiais não espelham a realidade. Segundo explicou, como a maior parte das publicações é supervisionada e subsidiada pelo Governo, os poetas chineses, para assegurarem a sua liberdade de expressão, optam por criar revistas por conta própria. O poeta e tradutor Yao Jinming frisou que este fenómeno é muito importante para a divulgação da poesia chinesa e que se nota um grande dinamismo e vitalidade neste movimento. “Na China, as revistas nascem e aparecem como ervas”, disse.
Após estas comunicações introdutórias, o debate aberto arrancou com as opiniões dos poetas Fernando Echevarría e Gastão Cruz, que defenderam uma ideia similar - a poesia não tem de ser um instrumento de combate contra a ditadura mas, sobretudo, ter qualidade. No entanto, Gastão Cruz lembrou que mesmo os poetas com temas apolíticos acabaram por escrever alguns dos poemas mais directos ao regime salazarista, como foram os casos de Ruy Belo, Alexandre O’ Neil ou Sophia de Mello Breyner Andresen. Yao Jinming corroborou os exemplos de Gastão Cruz, relembrando o poema “Exílio” da poetisa.
Depois do debate seguiu-se a explanação dos principais movimentos da poesia contemporânea portuguesa, com a intervenção de Fernando Pinto do Amaral. O poeta traçou o percurso histórico da poesia desde a década de 50 até à actualidade, destacando que nos últimos 30 anos se assistiu a um desvanecimento do fenómeno de movimentos como o modernismo e de grupos como a geração de Orfeu. O poeta deixou de ser “porta-voz da mensagem colectiva para passar a ser o indivíduo, expressando o seu olhar pessoal sobre tudo o que o rodeia”. Por outro lado, acrescentou, “a figura tutelar de Fernando Pessoa marcou toda os poetas portugueses, mesmo aqueles que se queriam afastar da sua influência, como foi o caso, por exemplo, de Eugénio de Andrade”. Outro factor que, na visão de Fernando Pinto do Amaral, define a poesia actual é a quantidade de poetas que passaram para a ficção, como Vitorino Nemésio ou Herberto Hélder.
No debate interviu também o poeta Yan Li para contar que quando foi para Nova Iorque conseguiu criar uma editora e publicar livremente os seus textos, situação que lhe lembra o exílio de muitos poetas portugueses durante o regime salazarista. Yan Li afirmou ainda que, enquanto que na China a pintura já goza de uma certa liberdade, o mesmo não se pode dizer sobre a poesia. Mas, acrescentou, “os poetas chineses têm de contornar isto e existem muitas poesias que se publicam em revistas do governo”. Em relação ao intercâmbio com Portugal, o poeta defendeu que a compreensão adequada da poesia chinesa carece de uma contextualização histórica, sendo também “essencial traduzir a poesia chinesa porque senão esta perde a sua vitalidade”.
O programa vespertino do “I Encontro de Poetas Lusófonos e Chineses”, incluiu a inauguração no Centro UNESCO de uma exposição de fotografias de Yu Jian e Yao Jingming, evento que contou com a presença do embaixador José Manuel Duarte de Jesus e Jorge Rangel, presidente do Instituto Internacional de Macau (IIM).
PROMOVER A CULTURA. Em declarações ao JTM, Jorge Rangel salientou que este encontro vem complementar o seminário ‘Lusofonia, Média e Desporto” (promovido pela Associação Portuguesa de Imprensa na passada semana) porque “desporto ou negócios são muito importantes, mas faltava promover a cultura”.
“O IIM achou oportuníssimo um encontro de poetas em que estes publicam juntos um livro numa edição bilingue, promovendo assim o encontro entre as culturas chinesa e portuguesa”, sublinhou Jorge Rangel, lembrando ainda que o encontro faz parte do programa cultural dos Jogos da Lusofonia.
Para o mesmo responsável, a realização dos Jogos da Lusofonia é entendida igualmente como coincidente com dois objectivos centrais do IIM: “projectar Macau internacionalmente em termos culturais e académicos, mas também reforçar a afirmação do legado de Macau.”
Por sua vez, Luís Sá Cunha explicou ao JTM que o IIM procurou com este primeiro encontro “ver quem poderá assumir a responsabilidade de organizar o próximo”, adiantando que possivelmente realizar-se-à no Brasil, na cidade da Bahia. O responsável do IIM esclareceu, no entanto, que nada está ainda decidido nesse sentido.
O encontro de poetas lusófonos e chineses, para além de ser organizado pelo IIM, Fundação Jorge Álvares e Centro Nacional de Cultura, é também apoiado pela COJOL e Fundação Calouste Gulbenkian. A iniciativa conta ainda com a colaboração especial da Fundação Macau-Centro UNESCO. O encontro prosseguirá até amanhã com mais debates, comunicações e declamações de poemas, encerrando com uma recepção oferecida pelo cônsul-geral de Portugal, Pedro Moitinho de Almeida, durante a qual será entregue a Yao Jingming uma condecoração do Governo português.