A eventual redução da presença militar internacional em Timor-Leste foi aceite como uma inevitabilidade pelo primeiro-ministro timorense, Ramos-Horta, no final do encontro com o PM australiano que ontem visitou o país durante seis horas
Concordo que haja necessidade de
redução. Continuamos a precisar de uma componente militar de
peace keeping, sob a cobertura das Nações Unidas,
mas pode não ser uma força grande, disse.
Ramos-Horta falava no final da visita a Díli do seu homólogo australiano, John Howard, durante a qual um dos temas abordados foi justamente a progressiva diminuição dos efectivos da Austrália, o país que participa com mais militares e polícias no contingente de 2.200 efectivos actualmente estacionados em Timor- Leste. Uma força militar é sempre uma força de dissuasão, que dá também apoio à própria força policial. Às vezes a força policial precisa do back-up de uma força militar, acrescentou o primeiro-ministro timorense.
Sobre a deslocação de John Howard, Ramos-Horta disse ter-se tratado de uma visita de cortesia. Foi fundamentalmente uma visita de cortesia. O primeiro- ministro John Howard não quis deixar passar muito tempo sem vir aqui manifestar o seu apoio ao povo timorense, às autoridades e às instituições e também ver as suas forças, afirmou.
O chefe do governo australiano veio garantir o apoio total da Austrália às necessidades de Timor-Leste na área do desenvolvimento e na área humanitária, disse.
Reiterou uma vez mais que a Austrália está aqui a nosso pedido. Respeita totalmente a soberania e a integridade territorial de Timor-Leste e que, logo que as condições permitam, preferiam começar a reduzir as suas forças, salientou.
Segundo os dois primeiros-ministros, a situação de segurança melhorou significativamente em relação aos meses de Maio e Junho, pelo que a Austrália está a considerar reduzir o total das forças estacionadas em Timor-Leste.
A disponibilidade de Ramos-Horta em prestar declarações à imprensa contrastou com a posição de John Howard, que privilegiou os jornalistas australianos, anulando a conferência de imprensa prevista para o final da visita à capital timorense.
Foi igualmente escassa a informação sobre o programa da visita, com o gabinete de Howard em Camberra a invocar razões de segurança, e os jornalistas timorenses, indonésios e portugueses a serem mesmo impedidos de entrar no Campo Fénix, no bairro de Caicoli, onde anteriormente esteve sedeado o batalhão militar português. Apenas os jornalistas australianos foram autorizados a entrar.
XANANA GUSMÃO CONTENTE. O presidente de Timor-Leste, Xanana Gusmão, manifestou-se contente no final do encontro de cerca de 40 minutos com o primeiro-ministro australiano, John Howard. É uma visita de amizade e de solidariedade. Falámos da situação actual e do futuro, do que temos que fazer para dar um apoio mais eficaz à presença das forças internacionais, disse Xanana Gusmão.
Interrogado sobre as alegações de que sectores australianos seriam responsáveis pela queda de Mari Alkatiri, o presidente timorense escusou-se a comentar, limitando-se a afirmar: Nós, timorenses, estamos conscientes da nossa própria situação.
Entretanto o brigadeiro Mick Slater, comandante das tropas australianas, disse à Lusa que a situação de segurança em Díli é cada vez maior e isso deve-se à coordenação das forças internacionais no terreno.
Diariamente a situação está melhor, mais normalizada, mas esse resultado não é somente esforço das tropas australianas. Os militares australianos não teriam alcançado isso sem o esforço conjunto dos neozelandeses, malaios e da GNR de Portugal, afirmou.
O brigadeiro Mick Slater falava à Lusa antes do almoço dos militares australianos com o seu primeiro-ministro, John Howard. (A visita de John Howard) é uma ocasião muito importante. Os soldados sentem-se mais reforçados. Eles gostam mesmo muito do primeiro-ministro e contribui para lhes aumentar o moral, acrescentou.
Além do encontro com Ramos-Horta, Howard reuniu-se com o Presidente Xanana Gusmão e o representante especial do secretário- geral da ONU em Timor-Leste.
A vinda de John Howard a Timor-Leste foi a primeira de um governante estrangeiro desde a demissão do ex-primeiro-ministro Mari Alkatiri, no passado dia 26 de Junho.
A Austrália, Malásia, Nova Zelândia e Portugal iniciaram o envio de militares e polícias a 25 de Maio, em resposta a um pedido das autoridades timorenses, para restabelecer a lei e a ordem no país, na sequência da decisão de Xanana Gusmão de chamar a si a coordenação e controlo das áreas de defesa e segurança.
O envio de forças internacionais, actualmente cerca 2.200, sucedeu-se a uma crise político-militar em finais de Abril, que resultou na desintegração da Polícia Nacional, na divisão no seio das forças armadas e em actos de violência perpetrados por grupos de civis, armados.
Este conjunto de acontecimentos provocou a morte de cerca 30 pessoas, a destruição de bens privados e públicos e mais de 150 mil deslocados.