Editorial
Em tempo de “boom”

José Rocha Dinis

Nada deve fazer com que o Governo, e o seu mais alto responsável, não continuem a preocupar-se com as dificuldades com que vivem alguns dos residentes mais deserdados da sorte da vida, e se encontrem formas de os integrar numa sociedade mais próspera, logo mais justa

Que me perdoe o meu amigo Albano Martins por esta “foice em seara alheia”, mas não consegui deixar de me surpreender, uma vez mais, com o constante aumento dos número de receitas da Região Administrativa Especial de Macau.

Possivelmente, ele que é um reconhecido economista, terá leitura diferentes (mais profundas e até menos entusiastas), mas para os leigos, em que me incluo, não deixa de impressionar que nos primeiros seis meses deste ano e em relação ao mesmo período do ano passado, tenha havido um aumento de 18,2 por cento das receitas do Governo, com a indústria do jogo a registar um aumento de 14,7.

Quando se chega aos números totais fica-se ainda mais impressionado. No primeiro semestre, as receitas totais arrecadadas pelo Governo da RAEM chegaram aos 12 mil e 46 milhões de patacas, tendo os impostos da indústria do jogo ascendido aos nove mil e 34 milhões.

São somas fabulosas que têm tendência a aumentar, quer pelo “boom” da construção de novas estruturas para a indústria do jogo e hotelaria - o Cotai ainda só tem o Grand Waldo em operação - quer porque o Executivo avançou com variados projectos de modernização da rede viária, e de novos edifícios públicos, que terão impacto reprodutivo em quase todos os sectores da vida local.

Há que reconhecer, sem qualquer hesitação, que tem sido correcta a estratégia expansionista do Governo da RAEM, mas também não pode passar em claro que haja alguns sectores da sociedade que consideram que todo este crescimento económico lhes está a passar “à margem”.

Sabemos que as queixas nem sempre são justas e às vezes pretendem apenas esconder propósitos de protagonismo pessoal ou de grupo. Sabemos também, que no caso concreto de Macau há muito dinheiro “em movimento” nem sempre explicável do ponto de vista das “leis” económicas.

Mas nada disto deve fazer com que o Governo, e o seu mais alto responsável, não continuem a preocupar-se com as dificuldades com que vivem alguns dos residentes mais deserdados da sorte da vida, e se encontrem formas de os integrar numa sociedade mais próspera, logo mais justa.