NOBEL DA FÍSICA 2005 ESTEVE NA UNIVERSIDADE DE MACAU
“As crianças devem envolver-se nos seus projectos
científicos”
Roy Glauber, considerado o “pai da óptica quântica”, esteve ontem na RAEM. Para o laureado com o Prémio Nobel da Física no ano passado, este campo de especialização deve levar a uma revolução informática nos próximos anos, através de uma nova geração de computadores, menores e mais rápidos
A Universidade de Macau recebeu ontem o norte-americano Roy Glauber, laureado com o Prémio Nobel da Física em 2005. O professor de Harvard foi convidado para proferir uma conferência, no âmbito dos 25 anos da instituição. Perante uma plateia de mais de cem pessoas, sobretudo estudantes, discorreu sobre a sua área de especialização, que lhe valeu a distinção por parte da academia sueca, a óptica quântica.
Uma das principais questões em relação a este campo da Física é a aplicação. “A óptica quântica debruça-se sobre a forma com a luz interage com os átomos individuais”, explicou aos jornalistas Roy Glauber. Baseado nela, “haverá um novo método de computação no futuro, que não dependerá apenas do sistema binário”, previu. “Este tipo de computação quântica depende do armazenamento da informação em átomos e de consegui-la passar entre eles através de ondas de luz”, acrescentou o Prémio Nobel, revelando que, apesar de tudo, ainda não existe nenhum protótipo de “computador quântico”, que deve ser bastante mais pequeno e rápido do que os actuais.
Outra área onde a óptica quântica pode ser responsável por importantes avanços é na energia solar. “A teoria também fará a diferença aí”, garantiu o professor de Harvard. “Vai aumentar a eficiência da recolha da energia solar”.
ESTIMULAR JUVENTUDE. Para Roy Glauber, é preciso continuar a estimular os jovens para que se interessem pela Física. Embora reconheça que “ainda existem muitos estudantes interessados” e que “há mais gente a estudar ciência do que há alguns anos”, o Prémio Nobel defendeu que novas áreas, como a biologia molecular, estão a roubar potenciais estudantes à Física.
Além disso, o académico norte-americano refere a crescente complexidade do mundo científico. “ Quando comecei a trabalhar como teórico, era esperado que dominasse vários campos. Actualmente, os mais jovens especializam-se muito rapidamente”. Por isso, diz Glauber, “agora são necessários muito mais estudos” para se trabalhar no campo da Física.
Na opinião do especialista, para cativar o interesse dos mais novos, “as crianças podem e devem envolver-se nos seus próprios projectos científicos”. E o Prémio Nobel dá o exemplo dos EUA e das suas feiras de ciência: se antes, os jovens apresentavam descobertas e invenções próprias, “o que encontramos actualmente é que fazem apenas um ‘poster’ sobre algo que leram num livro”.
NOBEL DE UMA CARREIRA. Roy Glauber foi laureado com o Prémio Nobel em 2005 pelo seu trabalho na óptica quântica, dividindo o galardão com o norte-americano John L. Hall e o alemão Theodor W. Hansch, que viram as suas investigações no âmbito dos “lasers” de alta precisão reconhecidas. No entanto, quanto recebeu o telefonema em sua casa, no Massachussetts, às 05.30 manhã, Glauber pensava que se tratava apenas de uma brincadeira. “Ganhar o Prémio Nobel nunca me passou verdadeiramente pelo espírito”, disse então.
O trabalho teórico de Glauber permitiu perceber, durante a década de 60 do século passado, o comportamento das partículas da luz - os fotões. Utilizando conceitos da mecânica quântica, explicou pela primeira vez as diferenças fundamentais entre as fontes quentes de luz (como as ampolas), em que há uma mistura de frequências e de fases, e os “lasers”, que dão uma frequência e uma fase específicas.
Para muitos cientistas, o trabalho de Glauber surge na sequência da teoria fotoeléctrica de Einstein, pela qual recebeu o Nobel, em 1921. Talvez por isso, o laureado de 2005 da academia sueca tenha escolhido terminar a palestra de ontem com uma imagem do físico alemão, captada em 1951, nas redondezas da Universidade de Princeton, quando Glauber era lá pós-doutorando.