LIDO
As lições do Mundial
(...) Hoje, tudo mudou. O respeito com que Portugal é visto contrasta gritantemente com o encolher de ombros de 1990 ou com o abanar da cabeça de 1998. A Selecção Nacional cresceu, prosperou, encontrou o seu espaço próprio e é hoje uma realidade incontornável, blindada contra amesquinhez e o clubismo cego, orgulho de um país que não se esgota nem em visões fanáticofundamentalistas, nem nos tradicionais frequentadores dos estádios. O presente que a Selecção Nacional traz à sociedade portuguesa tem sobretudo a ver com a abrangência que consegue, com as pessoas que convoca para a causa de Portugal, para a capacidade de aglutinação nacional em torno de uma ideia, numa altura em que a evolução da União Europeia e das teses federalistas esbate as fronteiras da identidade nacional.
Não sou,de todo, contra a ideia de uma União Europeia forte. Desde que preservemos a nossa identidade nacional, a nossa cultura e os nossos valores, estando ao mesmo tempo englobados num espaço político-económico que se pauta pela defesa da democracia, da liberdade e da justiça social, estaremos perante um casamento quase perfeito.
Mas a componente nacional - sã, pura, louvável-que identificamos como agregada à nossa Selecção é também possível constatar, com a mesma força, entre os holandeses, os alemães, ou os ingleses, suecos e franceses, povos que se situam na frente do pelotão europeu, como também, com uma força crescente, nos países mais pobres. Milhares de ucranianos, emigrantes na Alemanha, ocorreram a Leipzig para assistir ao jogo da sua selecção com a Espanha. A Ucrânia jogou mal, muito mal mesmo, e viu-se vergada a uma derrota por 4-0. Mas nem o peso dos golos fez esmorecer o orgulho ucraniano. Até ao fim gritaram pelo seu país e moralizaram os jogadores para os jogos restantes. Tudo a fazer parte do processo de afirmação de um país há pouco tempo saído do jugo soviético. Talvez fosse interessante alguma meditação perante situações tão ricas em motivos de análise...
José Manuel Delgado in “A Bola"