TRIBUNAs

Defeitos

A crónica de Eduardo Prado Coelho na edição de ontem do Público não surpreende ninguém aqui em Macau. É que são demasiados os exemplos daqueles que em dois ou três dias de estadia costumam lançar postas de pescada sobre isto.

Não é possível a definição de Macau, realmente só vivendo cá, mas vivendo cá sabendo comer as comidas legais e as proibidas aquelas que fazem bem à saúde e as outras que põem um gajo sap i tim; dominar o cantonense; gozar as saunas sem ter nada a ver com a prostituição; perceber que apostas entre pessoas que assistem a determinado evento desportivo é um modo constante de desafio à intuição; conhecer pessoas milionárias mas simples; saber o Poder; conhecer a mulher chinesa, o seu corpo e a sua pele; circular de bola baixa, como se diz cá na terra não armar em fanfarrão; saber distinguir de entre os transeuntes que aquele é residente de Hong Kong, o outro coreano, esse outro japonês e este do continente; apanhar bebedeiras de palante e mau toi; gostar do trave amargo do fu kuá; de doçaria chinesa : sin lai tán in vó, yeong chi kam lou ou hap tou vu só para mencionar algumas das que gosto mais; cantar Beyond nos karaokes; perceber as telenovelas dos canais chineses de Hong Kong; saber beber e distinguir o chá, se é oolong, pou lei ou verde long chéng; escolher os dias e as datas para se tomar decisões importantes; saber que quando se vai comprar livros deve dizer-se ngó vui mai yéng; saber porque é que não se pode dizer a uma esposa macaense ou chinesa “tai pó tan c**t”; o alcance da expressão “nossa malta” que os macaenses utilizam; enfim, e outras tantas coisas que se tem de saber, havendo concerteza outras vivências.

Podem ser coisas triviais, mas que só se aprendem depois de muitos anos de cá estar na convivência com a comunidade chinesa e macaense, e é esse relacionamento, essa familiaridade e a satisfação do outro no reconhecimento da nossa completa integração que nos faz gostar de Macau.

Esses inquisidores que pensam que o mundo gira à volta deles, verificam com estranheza que quando aparecem por cá ninguém lhes liga porque por aqui está-se noutra, que não somos consumidores do canal internacional da televisão pública portuguesa, e confusos tentam perceber o modo de vida local que evidentemente não conseguem discernir, e nesse ressentimento esboçam uma descrição caricata.

Acabamos de ler a referida crónica e só nos resta abanarmos a cabeça com ar desiludido a expirar fundo : como é possível?

*Jurista. Colaborador regular do JTM