os desatinados

Cegos, surdos e mudos

1. Podia estar calado, mas, francamente, não é  meu feitio.

Eduardo Prado Coelho, pessoa que nunca conheci nem tenho qualquer interesse em conhecer, embora tente lê-lo com a regularidade que me é possível, tal como, aliás, outros conhecidos opinion makers portugueses, resolveu escrever recentemente sobre Macau. 

Do que li, pareceu-me mal tê-lo feito, da forma como o fez, durante a visita do Chefe do Executivo a Portugal, e de ter sido ofensivo, ou grosseiro, se quiserem (embora o defeito ele  reconheça ser apenas seu), para com as pessoas de Macau de etnia chinesa, mormente as mulheres, ao generalizar situações da sua vivência esporádica por estas bandas.

Retirando isso, Prado Coelho fala do que viu e sentiu. Não, naturalmente, do que não viu ou sobretudo do que nós, que cá vivemos há tanto tempo, vemos e sentimos.

Talvez porque não quisesse ou porque se tenha esquecido de que existe uma outra face (cada vez mais) oculta de Macau, o que dificilmente se desculpa a pessoa tão conceituada. Dessa forma, cometeu o pecado mortal de confundir a parte com o todo e de ter sido, no mínimo, um tanto quanto brejeiro no que toca à maioria das suas gentes.

Caiu-lhe o Carmo e a Trindade em cima, sobretudo da imprensa escrita! Caramba, a isso também se chama liberdade de imprensa, ou os seus aspectos mais negativos já não fazem parte dela? Não bastava publicar-se o texto e as pessoas inteligentes tirarem daí as suas ilações?

Retirando o grosseiro do texto e a generalização ridícula da sua percepção de macho, que não se vê ao espelho, que se resumem, salvo melhor, a três frases do texto publicado, e, naturalmente, a falta de sentido de oportunidade da sua publicação, o homem até parece que tem lido o que se tem vindo sistematicamente na imprensa local. E, olhem, que eu já li bem pior!

Ou será que eu também já estou cego e surdo e caminho rapidamente para mudo?

Na verdade, reconheçamos, quantos de nós estão igualmente desiludidos com a descaracterização que tem vindo a sofrer esta cidade ou preocupados com a perda acelerada da qualidade de vida dos seus residentes? Cool down!

2. Uma velhota centenária, repito, centenária, de parcos recursos, para não dizer sem recursos, que vivia acompanhada do seu animal de estimação, teve um azar. Que pode acontecer a qualquer um e, sobretudo, a quem é centenário. O animal, provavelmente habituado a sair e fazer as suas necessidades sózinho, terá posto o dentinho em alguém em circunst6ancias que se ignoram. Ao que se sabe, nada de grave teria acontecido, mas os preceitos obrigam a que o animal fique de quarentena.

Até aí, tudo bem! O problema veio depois. Passada a quarentena, a velhota recebe a factura do IACM: 2.455 patacas! Factura que inclui estadia, multas, alimentação e licença!

Para sermos rápidos, ou paga ou o animal é abatido. Tão simples quanto isso. Bem, a  centenária ia morrendo de vez e, se houvesse descuido, antes do próprio animal.

Conclusão: mais uma vez a Anima teve de actuar em  socorro de gentes carenciadas.

Perante tanta insensibilidade das chefias máximas do IACM a esse tipo de situações, não admira que as sugestões de modernização do quadro legislativo regulador dos direitos dos animais e da sua posse e comércio fiquem em águas de bacalhau por muitos e muitos anos. Mas até quando vão continuar cegos, surdos e mudos?

* Economista. Escreve neste espaço às sextas-feiras