EDITORIAL
O “dia mais longo” de Timor
Ontem foi certamente o primeiro dia de uma nova escalada no confronto. É que, quando as crises não se resolvem pela Lei ou pelo diálogo, são as armas quem fala mais alto. E, ao que consta, em Timor, armas é o que não falta...
Começou (como em 1974 em Portugal) por ser um protesto de militares a questões salariais e de carreira. Tendo por base a grande insatisfação popular por a maior parte da população viver a nível da susbsistência, vieram ao de cima a crise económica e as “contas” mal acertadas em anos anteriores.
Díli ficou “a ferro e fogo” (literalmente) e o Estado desapareceu. Queimaram-se casas, morreram civis, incluindo crianças, e a lei e ordem ficou, por alguns dias, na mão de “bandidos sem escrúpulos”, jovens e menos jovens de cara tapada e catana na mão a espalharem o terror pelos bairros em torno da capital timorense.
Entraram tropas australianas, mas cedo se percebeu que não iam para impedir as situações de violência, mas apenas para zelar pela segurança dos dirigentes políticos, a quem o povo, assustado, apelava à paz e ao diálogo.
Os militares contestatários aumentaram a parada e exigiram novo Primeiro-Ministro. Xanana Gusmão concedeu-lhes meia vitória, forçando a mudança de dois ministros, mas a crise militar e socio-económica já passava ao patamar político, com as posições dos dirigentes bem claras: de um lado, Alkatiri e a Fretilin, com a legitimação dos resultados eleitorais, do outro Xanana, Ramos Horta, e apoios internacionais regionais - Austrália e Indonésia, que, certamente não por acaso, visitou antes de lançar “a bomba” da demissão do Primeiro-Ministro.
Ontem foi “o dia mais longo” do Timor independente, o dia de todas as divergências, e certamente o primeiro dia de uma nova escalada no confronto. É que, quando as crises não se resolvem pela Lei ou pelo diálogo, são as armas quem fala mais alto. E, ao que consta, em Timor, armas é o que não falta...