Carlos Pinto Coelho apresentou livro “A meu ver”
“Portugal está sem alma”

Os portugueses não estão a desempenhar o seu papel na lusofonia, acusa o jornalista Carlos Pinto Coelho. Para o antigo “pivot” do programa cultural “Acontece”, Macau é um exemplo a esse respeito, pela sua obstinação na defesa da identidade de língua portuguesa

“Portugal não tem ânimo, não tem arcaboiço para desempenhar o seu papel de responsabilidade na lusofonia, que não é maior nem menor do que o dos outros”. Quem o diz é o jornalista Carlos Pinto Coelho, que acrescenta que falta “quem tenha vontade de a praticar” no país onde ela nasceu. “Mas que diabo, lusofonia tem a palavra ‘lusa’ lá dentro por algum motivo”, desabafa.

Por isso, explica, a RAEM reveste-se de uma especial importância. “De cada vez que venho cá, confirmo e robusteço a noção de quanto Macau é único nessa utopia, nesse mundo virtual ideal a que se chama lusofonia”, diz Carlos Pinto Coelho, um lisboeta que cresceu em Moçambique.

Curiosamente, durante dez anos, o jornalista foi um dos principais difusores da cultura em língua portuguesa através do programa “Acontece”, uma rubrica cuja importância, passados dois anos e meio sobre a sua suspensão, ainda muitos recordam. “Mataram-me o programa, mas não vou ficar em cima da sua campa o resto da vida”, afirma.

Certo é que, terminado o “Acontece”, não surgiu nenhum substituto à altura na televisão portuguesa. “O que sucede é que hoje os editores, os chefes de redacção e os donos dos media não querem saber de cultura - ela não vende, não dá audiências, não dá publicidade, não dá lucro”, desabafa o jornalista.

 “A MEU VER”. As declarações de Carlos Pinto Coelho foram feitas à margem da apresentação em Macau da obra “A meu ver”, um luxuoso volume de 320 páginas que contém dezenas de fotografias que o jornalista fez em países da Europa, África, Ásia e Américas. No entanto, a mais valia do livro radica não nas imagens, mas nos textos que as acompanham. Isto porque as fotografias foram vistas e seleccionadas por 156 grandes nomes da cultura de Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde e S. Tomé e Príncipe, que escreveram textos inéditos para uma delas, escolhida por si.

Na obra, um trabalho de 12 anos que viajou pelo mundo antes de ser editado, juntam-se poetas e ficcionistas, realizadores de cinema, jornalistas, artistas plásticos, políticos, fotógrafos, actores e cartoonistas. Nomes como Mário Soares, José Saramago ou Sérgio Godinho cruzam-se com José Craveirinha, Cid ou Ondjaki. “Uma tradução para texto das fotografias ou vice-versa?”, questionou ontem, durante a apresentação, o tradutor David Brookshaw, numa pergunta a que o autor não soube responder.

Entretanto, Carlos Pinto Coelho já prepara novo livro. “São retalhos de acontecimentos de que fui protagonista na RTP enquanto jornalista, director de informação, director de programas e director de relações internacionais e comunicação”, adiantou ao JTM. “Não é uma memória fácil, mas relatos de acontecimentos que foram estruturantes para o serviço público de televisão em Portugal”.

E.G.