ENCONTRO SOBRE LITERATURA EM PORTUGUÊS
À descoberta das missangas da lusofonia em Macau

Autores do mundo lusófono estão desde ontem a discutir a literatura produzida na língua de Camões. Num evento organizado pelo Instituto Português do Oriente, hoje é dia de debater os autores macaenses e as ligações entre a oralidade e a escrita. Ao fim do dia, o jornalista Carlos Pinto Coelho apresenta a obra “A meu ver”

Emanuel Graça

A literatura feita em português nos quatro cantos do mundo está desde ontem em debate no Auditório do Consulado Geral de Portugal em Macau. O evento, que termina hoje, traz à RAEM vários escritores e estudiosos da lusofonia, sem esquecer aquilo que é feito localmente.

“Uma conversa pensada, reflectida, mas também feita com a alma de quem respira a palavra na língua que fala, que escreve, que discute, que trabalha”. Foi com estas palavras que a presidente do Instituto Português do Oriente (IPOR), Maria Helena Rodrigues, deu ontem o pontapé de saída para os debates. E, para começar da melhor forma, lançou a provocação: “Apetece-me perguntar a que lusofonia, se a alguma, nos conduzem estes caminhos da escrita de autores vários, de diferentes países, de tempos e realidades diversas, mas todos eles costurando, com o mesmo fio de língua portuguesa, missangas de palavras em colares de poesia, contos e romances”.

Para responder à interrogação, e depois de ontem se ter discutido a “A História e a Língua” e a “A lusofonia como tradução e a tradução da lusofonia”, vão hoje ter lugar mais duas mesas redondas. Durante a manhã, é tempo dos participantes se debruçarem sobre a literatura macaense. Um dos destaques é a presença da jornalista e escritora Liao Zixin, chinesa nascida no Cambodja e radicada em Macau. Além disso, Stella Lee, do Instituto Cultural, apresenta um trabalho sobre “Os escritores chineses de Macau: Visão actual do jovem macaense”. Do lado lusófono, José Carlos Venâncio fala de Henrique Senna Fernandes e Gustavo Infante debruça-se sobre os contos de Deolinda da Conceição.

À tarde, o tema é a “Oralidade e a Escrita”. Ondjaki, jovem escritor de 28 anos, nascido em Angola e autor de obras como o premiado “E se amanhã o medo”, explica como é “dançar com as palavras quietas”. Já a moçambicana Paulina Chiziane conta “Estórias de uma mulher africana” e o escritor português residente em Macau Fernando Sales Lopes deixa algumas “Notas soltas sobre a lusofonia”. Para encerrar o encontro, o jornalista cultural Carlos Pinto Coelho apresenta o livro “A Meu Ver”.

LITERATURA NOS PALOPS. Ontem, uma das principais intervenções teve como protagonista Fernanda Cavacas. A especialista em Literatura e Cultura dos países africanos de expressão portuguesa fez uma apresentação sobre a importância do português em Angola, Moçambique, Cabo Verde, S. Tomé e Príncipe e Guiné Bissau, para depois se debruçar sobre o estado da literatura em cada uma destas nações e o seu futuro.

“Pode haver uma evolução no sentido que esse português ganhe uma vida própria, nomeadamente como acontece hoje no Brasil”, explicou ao JTM. Fernanda Cavacas salientou que a tendência para a literatura africana lusófona “é continuar a crescer em número e qualidade”.

Para a especialista, mais do que um conjunto comum, tratam-se de literaturas com características próprias. “Aquilo que Germano Almeida faz em Cabo Verde é diferente do que aquilo que Mia Couto faz em Moçambique”, explica. Ainda assim, essas diferenças não são suficientes para diminuir o interesse dos portugueses por estas obras, diz. “As pessoas não se reconhecem nestas literaturas, mas sentem-se felizes por perceber que a língua portuguesa serviu, nestes países, para vincular toda uma nova realidade”.

À parte deste crescendo de interesse sobre os autores africanos de língua portuguesa, Fernanda Cavacas explica o porquê da recusa de José Luandino Vieira em receber o Prémio Camões. “Ele não podia aceitar, porque não escreve há 30 anos. O Luandino sentiu que lhe estavam a dar um prémio não pela valia da sua obra literária, mas por ter sido um lutador”, explica, numa referência ao seu papel na literatura angolana. No fim, Fernanda Cavacas deixa escapar uma confissão: “O Luandino voltou a escrever - dizem-me que entregou já para edição um outro livro”.