Lembrança

João Fernandes

Ao longo daquilo a que chamamos eternidade o tempo como uma cobra/ seu sopro diário dobra/ até que na curva finge/que a cabeça, os pés atinge...

Chineses com fome recolhem os restos, amor, do teu nome....

Quem o escreveu no meio de um muito mais longo poema, foi um velho amigo meu, que faleceu há já alguns anos nos Açores e que foi certamente um dos mais hábeis criadores da língua portuguesa e um homem de muitos e multifacetados talentos.

Não pensem que fui à biblioteca avivar a memória com esses quatro versos. Conheci-os (e ficaram-me estes versos na memória...) quando foram escritos talvez no alvorecer dos anos sessenta, quando Sebag estava nos seus Açores a fazer a tropa como oficial miliciano. Foi nessa altura, algo contrariado, que reuniu alguns poemas para editar em livro.

Ansioso que este fosse divulgado, soube na tipografia que o livro estava pronto um amigo e outro poeta, o José Carlos Gonzalez , que ali logo remeteu um exemplar, pela correio, para o João Gaspar Simões, certamente o mais conceituado crítico literário. Depois correu, alvoraçado, para dar a boa notícia do livro já estar pronto.

No mesmo dia Sebag foi buscá-lo, leu-o meditadamente na praia e achando que ficava aquém daquilo que exigia, logo ali queimou toda a edição para que não fosse conhecida...

Dias depois, Gaspar Simões ultrapassava-se em elogios a esse espantoso poeta que surgia... e que só um crítico leu...

Depois foi para a Índia, em missão de soberania, onde testemunhou a invasão, sendo feito prisioneiro durante quase um ano. Libertado, voltou para Lisboa, onde acabámos por receber todos os seus vencimentos como tenente e foram todos integralmente bebidos...

Deixei de o ver. Sei que esteve na Rádio. Um dia vi-o em Lisboa, como sempre brilhante e esfarrapado, e desafiei-o para ir para Angola, trabalhar comigo no “Notícia”. Aceitou, estando lá alguns meses, escrevendo todos os meses fulgurantemente... quatro ou cinco depois de o ir descobrir, após receber o vencimento, às vezes meio nu, embrulhado em álcool, num recanto do “musseque”...

Acabou por voltar para os Açores e à actividade radiofónica, à sua actividade perturbada... e um dia morreu.

Ninguém fala dele, da sua vida agitada, do que terá sonhado, do seu imenso e desconhecido talento, do seu humor malicioso, da sua esperança e desespero...

Nalgum ponto em que possa estar, espero que neste dealbar de 2003, saiba que eu me lembro.

... E acho que ficamos sempre vivos quando alguém se lembra de nós..