A vitória da FRETILIN nas primeiras eleições livres, a formação de um governo e da Assembleia Constituinte, o aumento na repatriação dos refugiados e a reconciliação dominaram o último ano antes da independência de Timor-Leste
![]() Mari Alkatiri eleito para chefe do governo timorense |
Com os timorenses pela primeira vez à frente de um governo do seu país, Timor-Leste termina 2001 longe das luzes da ribalta dos últimos dois anos, praticamente ignorado pela imprensa portuguesa e internacional.
Mas se os confrontos de outrora - com a sua mediatização garantida - dominavam as atenções do mundo, o ano que passou merecia - pela sua importância para o futuro dos timorenses e de Timor-Leste - eventualmente mais cobertura do que a que conseguiu. Este foi afinal o ano em que Timor-Leste formou o seu primeiro parlamento - o Conselho Nacional -, organizou o primeiro caderno eleitoral da população e a levou às urnas - pacifica e livremente -, criou a Assembleia Constituinte e iniciou o debate constitucional que se espera concluído em Janeiro.
O ano em que Xanana Gusmão confirmou a sua candidatura a Presidente da República, em que o CNRT se extinguiu e em que o primeiro batalhão das Forças de Defesa de Timor-Leste se formou, com o apoio do governo português. É em 2001 que, depois de anos de polémica, o controverso Tratado de Timor Gap deixa de existir e Timor-Leste passa a guiar o futuro das explorações de petróleo e gás natural na região.
Em paralelo, e em duas frentes, foi em 2001 que se avançou a passos largos com a reconciliação timorense - pelo envolvimento da liderança, nomeadamente Xanana Gusmão, e pelo processo de formação da Comissão de Acolhimento, Verdade e Reconciliação - e em que se começou a fazer justiça pelos crimes de 1999. Se em Jacarta o governo continuava a atrasar a formação de um tribunal para julgar os responsáveis pelos crimes do ano da consulta popular, em Timor-Leste o emergente sector da justiça impunha as primeiras penas a dez condenados por crimes contra a humanidade. Processos que decorriam em paralelo aos esforços quer das autoridades timorenses quer das indonésias no intuito de resolver o impasse dos cerca de 70 mil refugiados ainda em campos em Timor Ocidental.
Na segunda metade do ano - como se esperava depois das eleições que deram a maioria absoluta a FRETILIN na Assembleia Constituinte - o número de timorenses que regressou atingiu níveis especialmente elevados. Ainda assim, este continua a ser um problema para resolver no ano que começa, aquele em que depois de uma espera de mais de um quarto de século os timorenses assumem na totalidade as rédeas do seu futuro.
Já de olhos postos na independência, a 20 de Maio próximo, Timor-Leste fecha o ano num ritmo bastante mais calmo do que aquele que tem caracterizado todo o processo de transição. Díli é hoje uma cidade praticamente deserta com os aviões que ligam a capital a Darwin, na Austrália e a Bali, na Indonésia, completamente esgotados na fúria das partidas de Natal e Fim de Ano. A ONU já iniciou o processo de redução da sua presença no território, grande parte das ONG internacionais já partiu e o número de internacionais é evidentemente mais reduzido, com o grande impacto esperado na segunda metade de 2002.
Apesar dos muitos progressos conseguidos em 2001 - com o crescimento económico a rondar os 18 por cento - muitos no território mostram-se relativamente preocupados com o que há a fazer até Maio e especialmente com o período logo após a criação do mais novo Estado do mundo.
Os planos de desenvolvimento que começaram a ser traçados este ano só serão conhecidos no próximo ano, mas continua a ser necessário consolidar o sector privado - sustentando o doméstico e fomentando o internacional. O ano em que Timor-Leste visitou os doadores em Camberra e Oslo, recebendo as visitas do presidente brasileiro, Henrique Cardoso, e do MNE português, Jaime Gama, foi também o ano da crise na vizinha Indonésia, que assistiu à queda de Wahid e à sua substituição por Megawati Sukarnoputri.
Mudanças históricas como a do fim das FALINTIL ocorreram na mesma altura em que a situação de segurança se estabilizava, apesar de ligeiros aumentos no crime e alguns confrontos localizados na primeira metade do ano.
Os timorenses voltaram a poder estudar na sua universidade em 2001, observando diariamente um país em mudança com uma explosão na reconstrução privada e a conclusão de dezenas de projectos de recuperação públicos e financiados por iniciativas bilaterais como foi o caso do Liceu de Díli, reconstruído com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa.