PORTO 2001
Dalai Lama, Ponte de Sonhos e Wozzeck

A conferência do Dalai Lama, o espectáculo “Ponte de Sonhos”, as óperas “Wozzeck” e “Brundibar” e as exposições de paisagens em Serralves são algumas das marcas que ficam do Porto 2001


Dadai Lam foi a presença mais ilustre no Porto 2001

Os 344 dias de Capital Europeia da Cultura tiveram uma programação equilibrada ao longo do ano em número e variedade de eventos, à excepção de uma ligeira quebra no Verão, principalmente em Agosto e Setembro.

A música (bastante mais clássica do que moderna), as exposições no Museu de Arte Contemporânea de Serralves e a rede de conferências “O Futuro do Futuro” constituíram os “pilares” de uma programação que tocou todas as áreas e procurou chegar a todo o tipo de públicos.

Os percalços dos primeiros meses, principalmente devido à desastrosa política de convites, foram sendo ultrapassados ao longo do ano, ao ponto de só mesmo a articulação com Roterdão 2001 não ter sido atingida na plenitude.

Os anunciados jogos de futebol “poéticos” entre o FC Porto e o Feynoord não se realizaram, as conferências conjuntas sobre o fim das moedas europeias também não, a Rua da Fábrica “vestiu-se” de inscrições em holandês cheias de gralhas e os filmes da co-produção “Estórias de Duas Cidades” foram exibidos em holandês sem legendas perante uma plateia repleta de portugueses.

As “pazes” entre as duas Capitais Europeias da Cultura de 2001 foram feitas já no fim do ano, com a conclusão e estreia nas duas cidades da co-produção da ópera sobre as relações entre Erasmo e Damião de Góis “Melodias Estranhas”.

Apesar da descoordenação da política de convites e das dificuldades encontradas na reserva de bilhetes através da Internet, a maior parte dos espectáculos e conferências registou salas cheias, nalguns casos a “abarrotar”, dada a carência da cidade em espaços de grande dimensão (o Coliseu é a única excepção).

Além do Dalai Lama, que encheu o Pavilhão Rosa Mota, as conferências do “Futuro do Futuro” registaram outras grandes audiências, com destaque para António Damásio, Salman Rushdie e José Saramago. Os outros ciclos de conferências oscilaram entre salas cheias e quase vazias, com “Sob Influência”, “Os Outros Em Eu”, “Um Livro, uma Vida, um Objecto ou um Gesto” e “Literatura: Vozes e Olhares no Feminino” a suscitarem as maiores atenções.

O Museu de Serralves bateu sucessivos recordes de entradas, logo desde a abertura, com a exposição das mais belas paisagens de conceituados pintores como Gauguin, Monet, Courbet, Rembrandt e Kandinsky.

As exposições antológicas de Fernando Lanhas e Albuquerque Mendes e a “Land Art” de Richard Long e Hamish Fulton foram outros destaques em Serralves, que teve permanentemente as suas salas ocupadas, por vezes com sete mostras em simultâneo. O sucesso das óperas “Wozzeck” e “Brundibar”, a par do envolvimento de moradores de bairros sociais e crianças na sua produção, quase fez esquecer outros trabalhos operáticos importantes, como “Faltaff”, “Inês de Castro” e “Leonore”.

A programação de jazz teve altos e baixos entre os vários festivais, o rock só se ouviu quase no fim do ano, o Festival Intercéltico foi “vetado” e substituído pelas Noites Celtas e assistiu- se a apostas decididas nas músicas electro-acústica e electrónica, com destaque para a “Elektro Parade”, que levou 21 camiões a percorrer (muito lentamente) as margens do Douro.

A consolidação da Orquestra Nacional do Porto, agora com formação sinfónica, e o êxito do Remix - Ensemble Casa da Música (que já recebe convites para actuar no estrangeiro) foram outras notas positivas na área da música. Frustrando um pouco as (talvez exageradas) expectativas iniciais, o projecto “2001 Flautistas” nunca conseguiu reunir mais de mil e poucos pequenos tocadores e viu o seu desfile mais ambicioso (com “pirilampos” numa noite de Verão na Foz) ser cancelado devido ao mau tempo.

Não houve “pirilampos”, mas houve “grilos”, às centenas, espalhados pela caixa forte da antiga agência da Caixa Geral de Depósitos na Avenida dos Aliados, onde foi instalado o “Espaço 2001”. “The Tempest”, pela Royal Shakespeare Company, a versão lituana de “Othelo”, a encenação moderna de José Wallenstein para “Frei Luís de Sousa”, a crueza e actualidade da peça “O dia em que a Escola C+S fechou” e a ponta final do festival PoNTI foram alguns dos destaques da programação de teatro do Porto 2001.

A presença das companhias de Merce Cunninghan e William Forsythe marcaram o programa de dança, que apostou na divulgação do trabalho das escolas e na formação de novos valores. No cinema, as apostas foram para a animação, documentário, curtas- metragens e formação nestas três áreas, com o festival Odisseia nas Imagens a enquadrar uma estratégia que se pretende que venha a ter continuidade.

O documentário de Manoel de Oliveira “O Porto da Minha Infância” foi o mais aplaudido de uma série de filmes financiados pela Porto 2001, alguns dos quais, como “Corpo e Meio”, de Sandro Aguilar, já premiados internacionalmente. A execução de um programa cultural elogiado por quase todos os sectores foi prejudicada pelos atrasos na conclusão de diversos equipamentos culturais, como o Centro Português de Fotografia (CPF/Cadeia da Relação), a Casa das Artes, a cobertura do claustro do Convento de S. Bento da Vitória e o Museu Nacional Soares dos Reis.

A par do que já se esperava da Casa da Música, também a Casa da Animação e o Auditório Nacional Carlos Alberto não ficaram prontos a tempo, o que causou transtornos às programações de cinema de animação e do Dramat - Centro de Dramaturgias Emergentes. Devido aos sucessivos atrasos das obras da Cadeia da Relação, o CPF viu grande parte da sua programação “atirada” para o fim do ano, mas, em “troca”, recebeu como prenda da Porto 2001 (100 mil contos/500 mil euros) a Colecção António Pedro Vicente, que o transforma no melhor museu de fotografia da Península Ibérica.

A área das edições (37, no total) foi outra das que alcançou grande sucesso, com destaque para a primeira antologia poética universal, “Rosa do Mundo: 2001 Poemas para o Futuro”, e para os livros “Porto.Ficção”, “Dicionário de Personalidades” e “Contos das Cidades das Pontes”.

As instalações “O Elogio da Loucura” no Hospital Psiquiátrico Conde Ferreira, o teatro na Cadeia de Paços de Ferreira, as estátuas da cidade vestidas por estilistas, o espectáculo móvel “Autocarro do Amor”, as três toneladas de arroz nas Moagens Harmonia e a sucata de automóveis na fachada de um prédio foram alguns dos eventos mais originais do Porto 2001.