O ano de 2001 vai ficar na história das tragédias nacionais com a queda da ponte de Entre-os-Rios, que matou 59 pessoas, provocou a demissão de um poderoso ministro e obrigou a repensar os programas de obras públicas
![]() Tragédia na ponte de Entre-os-Rios chocou os portugueses |
Nove meses depois, continuam por recuperar 36 cadáveres e por apurar as responsabilidades do desastre que deixou o país em lágrimas a assistir em directo pelas televisões às operações de resgate de corpos e viaturas. Sem poder enterrar todos os mortos, as famílias enlutadas tratam agora de cuidar dos vivos, lançando uma associação social que apoie os mais carenciados e as crianças órfãs da região.
A recuperação integral dos donativos, dispersos em contas bancárias de várias instituições, e a tentativa de incriminar quem teve responsabilidades directas ou indirectas no colapso da ponte mantêm-se, porém, como outras prioridades das famílias, de acordo com o seu porta-voz. Horácio Moreira diz-se ainda preocupado com a iminência de cessar o apoio psicológico e psiquiátrico que continua a considerar imprescindível.
O colapso da ponte Hintze Ribeiro, ocorrido ao princípio da noite de 4 de Março, arrastou para o Douro um autocarro com 53 ocupantes, e três automóveis ligeiros, com um total de seis viajantes. Várias operações de buscas no Douro e na costa atlântica, que culminaram em Outubro com a retirada dos destroços do tabuleiro, permitiram recuperar apenas 23 dos 59 cadáveres, num resultado que irmanou na decepção equipas de resgate e famílias enlutadas.
No plano político, o acidente provocou a imediata demissão do então ministro do Equipamento, Jorge Coelho, e azedou ainda mais as relações entre o presidente da Câmara de Castelo de Paiva e o seu antecessor e actual governador civil de Aveiro, Antero Gaspar.
O acidente - que deu origem à maior cobertura mediática nacional de sempre - levou o Governo a lançar um programa de obras de emergência em Castelo de Paiva, no valor de 16 milhões de contos, incluindo a construção de duas novas pontes. Inquéritos promovidos pelo Governo e pelo Parlamento atribuíram o colapso da ponte a uma conjugação de factores, incluindo a extracção de inertes a montante de Entre-os-Rios, que continua suspensa. Mas as explicações oficiais são olhadas localmente com desconfiança. O que fez cair a ponte foi o Inverno rigoroso e a necessidade de abrir simultaneamente as comportas de duas barragens, a do Torrão, no Tâmega, e de Carrapatelo, no Douro, considera o inspector de bombeiros Salazar Galhardo, que presenciou o colapso.
A ponte situava-se na confluência dos dois rios e uma olhadela atenta para as correntes dava para perceber que batiam directamente no pilar que ruiu. Se não fosse essa circunstância ainda lá hoje passávamos, garante o inspector. Salazar Galhardo passou 28 dos seus 58 anos de idade entre tragédias, mas nada o marcou tanto como aquela. Estive em 1966 nas cheias de Lisboa, que fizeram 300 ou 400 mortos, e vi morrer 25 militares num incêndio na serra de Sintra, mas nada me impressionou tanto como ver aquele monstro de pedra e ferro ceder, transformando o Douro num imenso cemitério.
A farda e o espírito de bombeiro impunham-lhe que agisse rapidamente mas o inspector confessa que ficou algum tempo sem reacção e sem saber o que dizer. Agora, à distância de nove meses, Salazar Galhardo sustenta uma convicção forte: Ninguém podia prever uma coisa daquelas e quem o proclama, mente. Se soubessem que a ponte ia cair, não tinham arriscado uma manifestação em cima dela com autocarros e uma série de automóveis, acrescenta, numa alusão a um corte de trânsito ali ocorrido a 9 de Janeiro em protesto pelos maus acessos a Castelo de Paiva. Se alguém podia evitar a tragédia é o que a Procuradoria Geral da República está a analisar no âmbito de um processo ainda em segredo de justiça mas que o autarca de Castelo de Paiva, Paulo Teixeira, diz poder culminar em resultados surpreendentes.
Praticamente encerrado está, entretanto, o dossier das indemnizações. De acordo com o determinado após a tragédia, o Estado atribuiu 10.000 contos a cada família enlutada e um adicional entre os 2.000 e os 4.000 contos para cada herdeiro, em função do seu grau de parentesco.