2001 foi um ano de aparente impasse relativamente aos prometidos desenvolvimentos associados à descodificação do genoma humano, o Livro da Vida, mas cientistas lograram inaugurar a implantação de corações artificiais autónomos em humanos
![]() Urânio empobrecido espalhou receios pelos Balcãs |
O Livro da Vida foi aberto, com a descodificação do genoma humano há quase ano e meio, mas nenhum ensinamento fantástico foi revelado entretanto.
A terminar o ano, um inventor norte-americano contou um segredo que há pelo menos doze meses intrigava os curiosos: mostrou um dispositivo, uma espécie de trotinete eléctrica, que arquitectou para revolucionar a movimentação de pessoas nas cidades do futuro.
Entre a expectativa e o medo, o primeiro clone humano poderia estar a ser tentado, uma promessa que o embriologista italiano Severino Antinori tem vindo a repetir nos últimos tempos, à revelia de todos os avisos para não o fazer.
O anúncio, em Novembro, de que foram produzidos os primeiros embriões humanos clonados no mundo, pela empresa Advanced Cell Technology, reacendeu a discussão sobre os limites da ciência e a definição de vida humana.
Em Portugal, o ano começou marcado pela polémica do urânio empobrecido e terminou a repercutir efeitos do pânico espalhado pelo anthrax, bacilo do carbúnculo. Em ambos os casos, o aparelho científico nacional foi chamado a intervir, apoiando o sistema de Defesa do país e, simultaneamente, para acalmar e esclarecer as populações.
A missão científica independente que se deslocou à Bósnia e ao Kosovo confirmou a ausência de contaminação por urânio empobrecido dos militares portugueses que prestaram serviço nos Balcãs e as centenas de análises efectuadas em laboratórios nacionais a suspeitos de contaminação por anthrax confirmaram terem sido falsos alarmes.
De volta ao campo da genética, as promessas da investigação científica na área das células estaminais ou precursoras (que por serem indiferenciadas têm a capacidade de se desenvolver em qualquer tipo de tecido humano) esbarraram contra obstáculos políticos e religiosos. Enquanto os defensores desta pesquisa afirmam que esta pode ser a chave para a cura de doenças degenerativas, como a de Parkinson, os críticos opõem-se à destruição de embriões para que sejam retiradas estas células ou à sua criação exclusivamente para este fim.
No ano em que morreu Christian Barnard, que realizou o primeiro transplante de coração, cientistas norte-americanos conseguiram implantar com sucesso o primeiro coração totalmente mecânico, uma bomba de titânio e plástico que já demonstrou conseguir prolongar a vida a doentes terminais.
O ano ficou ainda marcado pelo arranque de um novo tipo de turismo, o espacial, com a visita de um empresário norte-americano à Estação Espacial Internacional (EEI). Enquanto a EEI vai crescendo e ganhando forma, tendo já registado a chegada de quatro tripulações a bordo, a Rússia perdeu um dos seus principais símbolos da conquista do espaço, a estação espacial Mir, que por dificuldades financeiras e razões de segurança teve de ser afundada no oceano Pacífico.
Nos Estados Unidos, a NASA retomou com sucesso as missões a Marte, num ano em que o histórico Daniel Goldin renunciou à presidência da agência espacial norte-americana, sendo substituído por Sean OKeefe, conhecido pela sua capacidade de contenção de despesas.
Na época Nobel de 2001, o prémio na área da Medicina distinguiu uma investigação que se espera vir a ter repercussões no tratamento do cancro. Na Física, foram laureados cientistas que concretizaram um novo estado da matéria, o condensado Bose-Einstein, e uma investigação sobre a síntese de moléculas, com aplicações na elaboração de antibióticos, medicamentos anti-inflamatórios e para o coração, foi distinguida com o prémio Nobel da Química.
Alguns portugueses começaram em 2001 a poder ver televisão interactiva e arrancou o processo da televisão digital terrestre, com a atribuição do primeiro lugar no concurso para esta tecnologia ao consórcio formado pelo grupo SGC, de João Pereira Coutinho, RTP e SIC.
Com mais dificuldades em arrancar estão as tarifas planas de acesso à Internet, apesar dos apelos nesse sentido do Instituto das Comunicações de Portugal e até do primeiro-ministro, António Guterres. Segundo dados oficiais anunciados em 2001, um em cada dois portugueses utiliza computador e um em cada três navega na Internet, principalmente a partir de casa. Este foi ainda um ano em que um jovem português, Fábio Diales da Rocha, recebeu uma medalha de prata nas Olimpíadas Internacionais de Física 2001, entre mais de 300 participantes oriundos de cerca de 70 países.
Em sede de Orçamento do Estado (OE) para 2002, o Governo anunciou que se propõe gastar mais cerca de 20 por cento no desenvolvimento científico e tecnológico do país, ou seja, um aumento de 12 milhões de contos no orçamento do ministério do sector.
A proposta de OE para 2002 entregue no Parlamento fixa a despesa total consolidada do Ministério da Ciência e da Tecnologia em 78,3 milhões de contos (390,8 milhões de euros).