Macau
mudou mais do que seria desejável
O pior:
Embora fossem de esperar, algumas mudanças verificadas de há um ano para cá tiveram um desagradável cunho fundamentalista que contraria as características multiculturais de Macau. Macau mudou menos do que alguns esperavam; mas mudou mais do que seria desejável...
O que não mudou, infelizmente, foi o estado da economia. Para os que acreditavam na chegada do paraíso, a desilusão não podia ser maior; talvez para o ano...
A drástica redução do número de portugueses nos quadros da Administração Pública veio pôr em evidência as deficiências do período de transição e a falta de preparação de muitos dos novos quadros. Se há serviços em que o dano não será grande, outros existem cujo desempenho - pela falta de conhecimento e pela inexperiência - põe em causa a credibilidade do sistema. De entre todos, preocupa-me sobretudo a área da Justiça (particularmente os tribunais), onde - ao contrário do que se tem feito em Hong Kong - há quem julgue que os problemas se resumem a uma questão de língua, isto é, que basta escrever chinês para ser jurista qualificado!
O melhor:
A par dos que partiram e deixaram saudades, desapareceram alguns inadaptados e outros parasitas. Macau foi, ao longo do último ano, menos maltratado nos órgãos de comunicação social do exterior, sobretudo em Portugal, donde provinham as intrigas políticas e as imagens mais sinistras e distantes da realidade.
Melhorou o sentimento de segurança.
Reduziu-se o paternalismo dos governantes, e as relações políticas e sociais tornaram-se mais transparentes.
Embora haja ainda muito a fazer, lançaram-se algumas bases de desenvolvimento económico que, a médio prazo, não deixarão de dar fruto.
A Região Administrativa Especial de Macau manteve, no essencial, as suas características e o seu modo de vida.
O mais importante - e que ultrapassa todos os outros aspectos - foi ter mudado a soberania sem que tivesse ocorrido qualquer ruptura nos fundamentos da sociedade de Macau.
*Publicado no JORNAL TRIBUNA DE MACAU, 19/12/2000