ANABELA RITCHIE:

“Houve enorme sentido de responsabilidade”

Na passagem do primeiro aniversário da criação da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM), é de assinalar que, globalmente considerada, a transição de Macau, de território administrado por Portugal para o seu novo estatuto, se processou de “forma suave” e “sem sobressaltos”, usando as expressões tão caras à comunidade chinesa, resultando em estabilidade e continuidade de que Macau sai beneficiada, no seu todo.

Acredito que tal foi possível graças ao enorme sentido de responsabilidade e dignidade dos intervenientes, o que foi fundamental para um processo que, por si e em qualquer latitude do mundo, é naturalmente complexo e difícil.

Ao longo do ano houve - e é preciso que continue a haver - um grande esforço e empenhamento para se assegurar o cumprimento do que foi estipulado na Lei Básica para a RAEM, a fim de que esta, integrada na República Popular da China, pertença efectivamente ao “segundo sistema”, consubstanciando uma verdadeira autonomia, nos termos acordados.

Todos queremos que Macau continue uma sociedade livre, pluralista, aberta e tolerante, detentora de uma identidade própria, caracterizada principalmente pelo primado da lei, a separação de poderes, duas línguas oficiais e uma mundivisão específica derivada do conjunto de princípios e valores que foram seus ao longo de séculos, acolhidos pelas comunidades de origens diversas que compõem a sua população.

Manter este estilo de vida “basicamente inalterado” é com certeza um dos grandes desafios que se nos colocam.

Torna-se, por isso, essencial que, ao entrarmos no segundo ano de existência da RAEM, com a economia a dar os primeiros sinais de retoma, se continue a definir, com rigor e competência, as opções de fundo de política administrativa, económica, cultural e social e, depois disso, as estratégias necessárias e adequadas ao desenvolvimento e execução das medidas políticas adoptadas, para que possam ser substituídos modelos tradicionais já esgotados.

Só assim poderá Macau dispôr de estruturas e capacidades para enfrentar e responder com sucesso aos desafios e às exigências do dealbar do novo Milénio, oferecendo simultaneamente à população novas oportunidades de desenvolvimento e progresso.

*Publicado no JORNAL TRIBUNA DE MACAU, 19/12/2000