Coordenação do PS pode ser decidida no congresso

Apesar de não ser unânime, alguns presidentes de federações não vêem vantagem em ter Sócrates como coordenador

ANA SÁ LOPES

JERÓNIMO PIMENTEL

José Sócrates está a avaliar o impacto das declarações do ministro Vieira da Silva, que, há duas semanas, manifestou ser melhor para a articulação entre o PS e o Governo que o Primeiro-Ministro deixasse de acumular funções com a coordenação do partido.

Vieira da Silva, em entrevista ao Jornal de Notícias, afirmou que a “acumulação da liderança governativa com a liderança partidária sempre existe, mas espero que, no decurso da preparação do congresso que está aí à porta, seja possível encontrar uma solução institucional, uma solução operativa que reforce a ligação entre o Governo e o partido sem que isso passe necessariamente por uma acumulação de funções”.  

No PS é convicção de que as palavras do ministro da Segurança Social serviram como “um teste” que permitirá a Sócrates avaliar a repercussão positiva ou negativa de um possível afastamento da coordenação do partido.

Por agora, ao que o DN apurou, não há uma decisão tomada quanto à questão, e surge até a hipótese de esta vir apenas a ser colocada em congresso.

Para o líder da federação do Porto, Renato Sampaio, a decisão compete exclusivamente a José Sócrates, e que deve ficar definida no congresso ou imediatamente a seguir.

A eventualidade de o congresso vir a pronunciar-se sobre esta matéria começa a fazer o seu caminho no interior do PS, e há mesmo quem pense que Sócrates poderá mesmo levar o assunto à reunião magna dos socialistas. Isto porque, se o líder socialista “quiser aclamar um novo coordenador”, essa seria a melhor maneira de o fazer, garantindo dessa forma o assentimento do órgão máximo do partido.

AVALIAÇÃO. A experiência destes últimos meses em que Sócrates esteve ao leme do PS tem tido leituras díspares. Entre os dirigentes federativos há quem descortine vantagens na fórmula que tem sido seguida, uma vez que este exercício de Sócrates permite por parte desses mesmos dirigentes um acesso mais fácil ao líder do partido. Mas há quem, avaliando as ausências de Sócrates nas reuniões com as estruturas federativas não consiga ver nenhuma vantagem, afirmando mesmo que o interlocutor agora na prática é “Marcos Perestrello, quando antes ali estava Jorge Coelho,” e a diferença de peso político entre ambos é claramente desfavorável ao agora sucessor do antigo homem forte da máquina socialista.

Entre os socialistas a questão de a quem caberá coordenar o partido só deve ser colocada após uma discussão mais profunda sobre os caminhos que o PS deverá seguir, ou mais concretamente, após a discussão sobre o ideário socialista. Foi Vítor Ramalho, actual líder da federação de Setúbal, que lançou o assunto e quer que o congresso se pronuncie sobre diversos aspectos: papel do Estado; o mercado e a determinação das políticas; igualdade de oportunidades versus liberdade económica e individual, etc.

Para Ramalho, “será em função de tudo isto que há que encontrar um modelo de partido” e desta discussão também resultará a resposta à questão do grau de autonomia do PS em relação ao governo. Deste debate, segundo Vítor Ramalho, deve resultar uma “unidade de pensamento que trará um reforço da linha de conduta”. E só após uma definição fará sentido colocar a questão de quem coordena.

Por agora, a sucessão ou não de Sócrates no papel de coordenador ainda não foi abordada nas reuniões dos presidentes das federações, apesar de, obviamente, ser um tema que anima as conversas entre os líderes das estruturas. Mas o que o que vai ganhando espaço é a convicção de que uma decisão sobre a continuação ou não do Primeiro-Ministro na coordenação do PS não poderá passar ao lado do congresso.

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