Esta obra evoca Macau nas décadas de 20 e 30,
com a frescura de um retrato de lugares e de gentes que calaram fundo na autora
e também nos corações dos que recordam tempos felizes naquela
idade em que todos os sonhos são possíveis...
Marcelo Rebelo de Sousa, na introdução ao livro Macau que eu conheci - anos 20 e 30, 2006, de Maria do Céu Saraiva Jorge
Apresentado em Lisboa, na magnífica Residência Domus Vida, onde a autora está alojada, este novo livro sobre Macau ganhou ali foros de grande acontecimento. Com o salão repleto, numa bela tarde de Maio do corrente ano, o Professor Marcelo Rebelo de Sousa, seu antigo aluno no Liceu Nacional de Pedro Nunes, saudou a inesquecível mestra, notável pedagoga e mulher de investigação e divulgação cultural que revelou sempre uma elevada e consistente capacidade pedagógica, e a obra, ora editada com o patrocínio do Instituto Internacional de Macau e da Fundação Jorge Álvares e o apoio de alguns dos alunos da sempre Mestra dos bancos liceais, que evoca Macau nas décadas de 20 e de 30, com a frescura de um retrato de lugares e de gentes que calaram fundo na autora e também nos corações dos que recordam tempos felizes naquela idade em que todos os sonhos são possíveis, e nenhuma contrariedade é suficientemente forte para toldar os horizontes do futuro, representando a sua publicação um contributo mais para a História de Macau sob administração portuguesa, um modo de preservar a memória que só enriquece o comum património luso-chinês e, sobretudo, uma homenagem, em vida, a uma querida Professora e Amiga.
Descendente de uma velha família macaense, Maria do Céu Saraiva Jorge nasceu em Lisboa, em 1919, e foi para Macau com poucos meses de idade, ali permanecendo até aos 16 anos. Estudou depois em Lisboa, no Liceu Maria Amália e na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, licenciando-se em Filologia Germânica. Como bolseira do British Council, frequentou a Universidade de Nottingham, tendo feito teatro amador na Inglaterra e aprendido dança na Escócia, além de trabalhar na BBC como locutora nas emissões em língua portuguesa.
Professora efectiva do ensino secundário, deu aulas em Cascais, Faro e Santarém e nos Liceus de Gil Vicente, Pedro Nunes e D. Filipa de Lancastre, em Lisboa. Traduziu os sonetos de Shakespeare, ministrou aulas de Inglês na Emissora Nacional e escreveu uma gramática de Inglês, adoptada como livro único do 2º ano liceal, em 1953. Também foi inspectora nacional do ensino secundário para a disciplina de Inglês no Ministério da Educação, aposentando-se em 1974, pouco depois do 25 de Abril.
Integrou a redacção da revista Palestra e colaborou assiduamente nos Cadernos de Pedagogia. Este seu livro - Macau que eu conheci - anos 20 e 30 é um verdadeiro percurso de recordações da terra que tanto amou e que lhe proporcionou vivências extraordinárias.
No prefácio, a autora explica que este pequeno livro vai decerto interessar a pessoas que viveram em Macau, sobretudo àquelas que lá estiveram nos anos 20 e 30, e que, portanto, conheceram esta linda e simpática peninsulazinha, mas foi também para informar os visitantes de hoje e para matar saudades aos antigos ocupantes da nossa colónia oriental que decidiu empreender a tarefa de descrever o que foi Macau no seu tempo de infância e juventude. Também desejou evocar a memória de muitas pessoas que lá viverame sentiu a obrigação de falar de vultos importantes que passaram por Macau, como Camilo Pessanha, poeta que estudou a fundo, e Wenceslau de Moraes, que, antes de trocar Macau pelo Japão, deixou uma descrição pormenorizada do que foi a vida em Macau no século XIX. O seu avô, José Vicente Jorge, sinólogo, grande coleccionador de arte chinesa e proprietário de um palacete e um rico jardim, muito admirados mas já desaparecidos, e o seu belíssimo livro Notas sobre a Arte Chinesa são igualmente referidos com afecto e saudade.
Para atiçar a curiosidade do leitor, transcreve-se esta descrição suave e pitoresca da cidadezinha que era Macau:
Nos últimos dias do mês de Julho de 1935, decidi que não ia deixar Macau sem a percorrer mais uma vez na minha bicicleta, como tinha feito todas as tardes, desde os meus dez anos. Agora, era para me despedir daquela querida terra, uma vez que ia deixá-la para continuar os meus estudos em Portugal, porque lá não havia universidade.
Macau... linda peninsulazinha, ligada à China por um pequeno istmo, as Portas do Cerco, um arco não muito mais largo que o Arco da Rua Augusta, em Lisboa. A uma pequena distância desta fronteira começava a enorme baía da Praia Grande, agora truncada por aterros com elevadas edificações, mas nesse tempo estendendo-se em formoso arco protegido do mar por uma baixa amurada de pedra, onde nos podíamos sentar à sombra das frondosas árvores que bordeavam esta avenida em toda a sua extensão, em frente de uma aprazível linha curva de bonitas moradias. Distinguia-se ao meio o imponente Palácio do Governador, rodeado por um grande jardim, o gradeamento do qual confinava com uma rua que conduzia, a subir, até ao largo da igreja de São Lourenço, uma das mais importantes da cidade.
Se continuássemos pelo passeio à beira-mar junto à amurada, chegávamos ao fim da curva da Praia Grande, a uma pequena reentrância chamada A Meia Laranja.
Um pouco mais adiante, do lado direito, erguia-se à beira da encosta o famoso pagode chinês intitulado Ma-kok-Miu, o antiquíssimo templo da deusa A-Ma, que deu o nome ao ancoradouro a que aportaram os primeiros portugueses. De A-ma-ngao, ou seja, Ancoradouro de Ma, teria derivado o nome de Macau.
Neste ponto começa a arredondar-se o extremo da península, dando lugar ao Porto Interior, que, visto em panorama, era um vasto aglomerado de barquinhos chineses, os sampanes, movidos a remos, com uma meia cobertura arredondada, de vime entrelaçado, por baixo da qual se abrigava uma família inteira, casal e vários filhos, rodeados geralmente por alguns galináceos, que por ali andavam à vontade. Mais além, havia uns barcos maiores, as lorchas, e ainda os imponentes juncos, de enormes velas, que faziam lembrar as antigas caravelas portuguesas. Ao fundo, separada desta barreira de navios por uma estreita passagem de água, fechava o horizonte a grande ilha da Lapa, território chinês que, apesar da sua proximidade, os macaenses nunca chegaram a ocupar.
A seguir ao Porto Interior, isto é, na costa oposta à da Praia Grande, a península prolonga-se, estreitando-se até às Portas do Cerco, onde termina o território de Macau.
No largo estuário em frente da Praia Grande viam-se a ilha da Taipa, hoje ligada a Macau por uma ponte, e a muito maior ilha de Coloane, ambas então quase desertas, mas agora densamente povoadas. Um aterro recente estabeleceu a comunicação terrestre entre as duas ilhas. Macau deixou, portanto, de ser uma península ligada à China. Ainda do lado do Porto Interior, avistava-se no meu tempo uma ilhazinha, a Ilha Verde, em frente da qual se situava a única área agrícola de Macau, uma plantação de arrozais, cuidada pelos chineses que habitavam na estreita faixa de terreno à beira-rio que precedia o istmo das Portas do Cerco. Assim ficam encerrados os contornos marginais do que era a península de Macau no meu tempo, os anos 20 e 30.
— // —
Coube ao autor deste artigo, na sessão de lançamento do livro, enaltecer o contributo de Marcelo Rebelo de Sousa para a concretização desta obra e o trabalho dedicado e competente de outro antigo aluno de Maria do Céu Saraiva Jorge, o advogado e director empresarial João Manuel de Almeida Loureiro e da sua esposa, Irene Henriques, directora da MAISIMAGEM - Comunicação Global, responsável por esta bem cuidada edição, patrocinada conjuntamente pelo Instituto Internacional de Macau e pela Fundação Jorge Álvares, de que se fizeram 500 exemplares em Abril de 2006. Reproduções de postais antigos de Macau da colecção de João Loureiro e fotografias da própria autora ilustram a edição.
Quando foi criada, em 2005, a Editora da Bisavó, no âmbito da Fundação do Santo Nome de Deus, em Lisboa, foi seu propósito lançar um desafio a tanta gente ligada a Macau que tem histórias que ficaram por contar e memórias que importa partilhar. Margarida Ribeiro, a sua directora e impulsionadora, deu ela própria o exemplo, fazendo publicar dois livros seus - Vivências em Poesia e A Mui. Agora, quis também Maria do Céu Saraiva Jorge dar-nos o seu valioso testemunho, logo incentivado por amigos e instituições. É desejável que venham mais iniciativas como estas e que organismos culturais, fundações e associações não deixem de as apoiar.
*Presidente do Instituto Internacional de Macau.
Escreve neste espaço às 2as feiras.