Ano IV — Nº 2141, Sábado, 24 de Junho de 2006
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FRETILIN reúne-se hoje para aprovar proposta de solução da crise

O impasse político em Timor-Leste poderá ser desbloqueado hoje, com uma reunião do comité central da FRETILIN para aprovar uma proposta de solução da crise, que fontes do partido admitem passar pela substitu ição do primeiro-ministro

Numa reunião com o corpo diplomático em Díli, o ministro dos Negócios E strangeiros e da Defesa, José Ramos-Horta, deu conta de um “entendimento para a renúncia do primeiro-ministro”, Mari Alkatiri, segundo disse à Lusa uma fonte diplomática, que solicitou o anonimato.

Também sob anonimato, uma outra fonte diplomática disse mesmo que o cenário de renúncia de Alkatiri “não foi apresentado como alternativa, mas como a única solução”.

Antes do encontro com os diplomatas, José Ramos-Horta reuniu-se com o Presidente da República, Xanana Gusmão, mas à saída do Palácio das Cinzas não prestou declarações aos jornalistas, à semelhança do que tem acontecido nos últimos dias.

Dirigentes da FRETILIN contactados ontem pela Lusa admitiram que a possível substituição de Mari Alkatiri “está a ser estudada” como uma saída para a crise, devendo a decisão ser tomada na reunião de hoje do comité central do partido maioritário em Timor-Leste.

Um elemento da comissão política nacional da FRETILIN, que pediu para não ser identificado, considerou mesmo que a saída de Alkatiri da chefia do governo é o cenário que “tem mais pernas para andar”.

Para limar as arestas desse entendimento, dois dos responsáveis máximos da FRETILIN, o presidente Francisco Guterres (Lu’Olo) (também presidente do Parlamento Nacional) e o membro do Comité Central Estanislau da Silva (ministro da Agricultura) estiveram ontem reunidos com Xanana Gusmão.

O sinal de descompressão veio depois do próprio Xanana Gusmão, que foi ao encontro de milhares de manifestantes concentrado em frente ao Palácio do Governo para exigir a demissão de Alkatiri e foi recebido de forma muito efusiva.

Tendo ao lado a mulher, Kirsty, o comandante “Railos”, líder do alegado “esquadrão da morte” supostamente criado pelo ex-ministro do Interior Rogério Lobato, e o major Alves Tara, um dos oficiais das forças armadas timorenses que abandonaram em Maio a cadeia de comando, Xanana disse aos manifestantes que a “esperteza” do povo permitiu ganhar “esta guerra”.

“Falhámos em garantir a vossa estabilidade, mas com a vossa esperteza ganhámos esta guerra”, afirmou Xanana Gusmão, perante o entusiasmo dos manifestantes, unidos na exigência de demissão do primeiro-ministro.

Sem adiantar qualquer pormenor sobre a solução para a crise, Xanana Gusmão frisou, no entanto, que cumprirá as suas obrigações com base nas exigências dos timorenses, no que foi interpretado pelos manifestantes como um sinal de que não se demitirá, como ameaçara na véspera.

Neste “braço de ferro” com a FRETILIN, Xanana Gusmão tinha recebido logo de manhã o apoio da Igreja Católica, com o bispo de Díli, D. Alberto Ricardo da Silva, a defender que Mari Alkatiri devia ouvir “a voz do povo” e apresentar a sua demissão.

Em comunicado, o representante especial do secretário-geral da ONU em T imor-Leste, o japonês Sukehiro Hasegawa, considerou Xanana Gusmão “indispensável para a manutenção da paz e estabilidade” no país.

Xanana Gusmão, numa mensagem ao país na quinta-feira, ameaçou demitir-se se o primeiro-ministro não o fizer, mas Mari Alkatiri mostrou-se irredutível na sua decisão de se manter na chefia do Governo.

Na mensagem, Xanana Gusmão responsabilizou Alkatiri pela crise que o país atravessa, considerando que está em causa a sobrevivência do Estado de direito democrático, e afirmou que sente “vergonha” pelo que o Estado está a fazer ao povo.


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