RITA CAMPOS E CUNHA
Em
tempo de Mundial de futebol, falemos de mérito e talento. Portugal foi
apurado para os oitavos-de-final com três vitórias registadas na
fase de grupos. A única vez que tal feito tinha sido anteriormente alcançado
pela selecção portuguesa foi há 40 anos, curiosamente também
treinada por um brasileiro, Otto Glória.
Os portugueses vivem com euforia este apuramento para a segunda fase do Mundial. Todos? Não, nem todos!
Na verdade, ouvem-se algumas vozes dissonantes, especialmente em relação ao seleccionador Scolari, de crítica pelas escolhas feitas para a sua equipa, de menoridade pelos resultados alcançados, que não são mais do que o esperado!
Em conferência de imprensa, foi preciso que Costinha e Figo viessem defender o treinador, afirmando que a sua saída representaria dez ou 20 passos atrás. E se Costinha pode ser suspeito ou parcial, o mesmo não se poderá afirmar de Figo, que não precisa de provar nada a ninguém. Ambos salientaram a capacidade de Scolari para criar uma equipa coesa, motivada e concentrada, uma equipa com as pessoas escolhidas, avaliadas e desenvolvidas pelo seleccionador, a quem se irão pedir responsabilidades (ou atribuir os louros?!...) pelos resultados, no final da participação portuguesa.
Então porque existem estas críticas?
Estas vozes dissonantes representam algumas das características da gestão à portuguesa, que foram apontadas há alguns anos por um estudo conjunto dum investigador da Cranfield School of Management e de uma empresa de executive search, Ad Capita International: formalismo exagerado, ausência de pensamento estratégico e falta de trabalho em equipa.
Evidentemente que os valores inerentes à cultura nacional influenciam muito os estilos de gestão das organizações, em particular as que não são internacionais ou multinacionais.
[As características culturais dos portugueses constantes da caixa em anexo] estão espelhadas em organizações onde as lutas pelo poder são uma tónica e a busca do consenso faz com que haja má execução e desresponsabilização pelos resultados. Como não há uma clara definição de responsabilidades, também não pode haver responsáveis pelos resultados atingidos. Ou seja, ou a culpa morre solteira ou os louros das vitórias são disputados por todos! É a externalização da causalidade dos acontecimentos, tão característica do fado português (o grupo de Portugal no Mundial é fácil!).
O mérito individual e colectivo não é valorizado, os pontos fortes dos colaboradores não são reconhecidos e aproveitados, as deficiências e fraquezas não são identificadas e desenvolvidas. E evidentemente, as diferenças são encaradas com desconfiança!
Esta imagem, necessariamente esquemática e geral, não corresponde ao ambiente vivido em muitas empresas portuguesas, com boa liderança e excelente capacidade de gestão. Nestas organizações, pelo contrário, o mérito é avaliado e premiado, e desde muito cedo o talento é identificado e desenvolvido, através de políticas de gestão de recursos humanos que funcionam em parceria entre os departamentos de recursos humanos e os gestores. Estes, os gestores, são responsabilizados por alcançar resultados e, para tal, têm o poder para escolher os seus colaboradores, para avaliar e premiar o seu mérito, para de-senvolver as suas competências.
Deixe-se então trabalhar os bons gestores de talentos!
Não esqueçamos, porém, que há sempre imponderáveis e, por isso, BOA SORTE, PORTUGAL!
© JTM/Diário de Notícias